A RAZÃO NA HISTÓRIA | HEGEL

| quinta-feira, 30 de julho de 2009
Obteremos um quadro imediato e definitivo do primeiro tipo
mencionando alguns nomes. Tomem-se, por exemplo, as histórias de
Heródoto, Tucídides e historiadores do gênero que, essencialmente,
descreviam as ações, acontecimentos e condições que tinham diante dos
olhos e de cujo espírito compartilhavam. Eles transferiam o que ocorria

Uma Introdução Geral à Filosofia da
História

I. OS TRÊS MÉTODOS DE ESCREVER A HISTÓRIA
O tema destas lições é a filosofia da história do mundo. Isto significa
que não estamos preocupados com deduções gerais e ilustradas por
exemplos particulares extraídos da história,-mas com a natureza da
história em si. O que se quer dizer com "história" torna-se mais claro
se começamos por discutir os outros métodos de lidar com ela. Existem
três métodos de tratar a história:
1. a história original,
2. a história reflexiva,
3. a história filosófica.
1. Obteremos um quadro imediato e definitivo do primeiro tipo
mencionando alguns nomes. Tomem-se, por exemplo, as histórias de
Heródoto, Tucídides e historiadores do gênero que, essencialmente,
descreviam as ações, acontecimentos e condições que tinham diante dos
olhos e de cujo espírito compartilhavam. Eles transferiam o que ocorria
externamente para o domínio da representação mental e, assim, traduziam
os aspectos exteriores para a concepção interior – muito à maneira do
poeta, que transforma o material perceptivo em imagens mentais. Esses
primeiros historiadores também faziam uso de afirmações e relatórios
de outros – é impossível que um homem possa ver tudo. Mas o poeta
utiliza também o produto de outros, o seu bem mais valioso é a língua.
O historiador junta o cursa fugaz dos acontecimentos e o deposita para
a imortalidade no templo ce Mnemósina. Mitos, canções folclóricas e
tradições não são parte da história , mas continuam sendo costumes
obscuros, característicos de povos não muito conhecidos. Aqui tratamos
de povos que sabiam quem eram e o que queriam. A realidade
46 A RAZÃO NA HISTÓRIA OS TRÊS MÉTODOS DE ESCREVER A HISTÓRIA 47
observada e observável é uma base mais sólida para a história do que a
transitoriedade dos mitos e dos épicos. Uma vez que um povo atingiu a
individualidade estável, essas formas deixam de ser a sua essência
histórica.
Os primeiros historiadores transformam os acontecimentos, as ações
e as situações diante de si em um trabalho de pensamento representativo.
Por isso, o conteúdo de uma tal história não pode ser de grande
alcance externo – levem-se em conta, por exem plo, I Ieródoto, Tucídides
ou Guicciardini t : o assunto essencial deles é o que está real e vivo em
seu ambiente. A cultura do autor e a dos acontecimentos criados em sua
obra, o espírito do autor e o das ações que ele relata são o mesmo. Ele
descreve aquilo que mais ou menos vivenciou ou o que pelo menos
testemunhou como contemporâneo e trata de períodos de tempo breves
e da apresentação individual de homens e acontecimentos, compondo
seu retrato a partir de configurações individuais não depuradas, a fim de
levá-los à posteridade de maneira tão distinta como o vivenciou em
pessoa ou através das narrativas pessoais de outros. Ele não está
preocupado com reflexões sobre os acontecimentos. Ele vive o espírito
dos acontecimentos, ainda não os transcende. Se, como César, ele'
pertence à categoria dos líderes militares ou políticos, serão os seus
próprios objetivos que irão aparecer como história.
Quando dizemos que um historiador desse gênero não depura os
acontecimentos, mas que em sua obra aparecem os próprios indivíduos
e os povos, parece haver umacontradição nos discursos que se podem
ler, por exemplo, em Tucídides. Com toda certeza, é verdade que eles
jamais foram feitos nessa forma. Mas as falas são ações entre homens
e, realmente, ações muitíssimo reais. A verdade é que em geral se diz
que foram apenas conversas e, supostamente, insignificantes. Uma
conversa desse tipo é simples tagarelice, e a tagarelice tem a grande vantagem
de ser historicamente insignificante. As falas de povos para
povos ou para povos e príncipes São partes integrantes da história.
Mesmo consentindo-se que orações como as de Péricles – o mais
profundamente. completo, o mais genuíno e o mais nobre dos estadistas
– tenham sido elaboradas por Tucídides, elas não eram estranhas ao
caráter de Péricles. Em seus discursos esses homens expressavam as
1. Francesco Guicciardini (1483-1540), em sua Istoria d'Italia (publicado em 1561-
64), trata do período que vai de 1492 a 1534. (Nota de Hartman.)
máximas de seu povo, de sua personalidade, da consciência de sua
posição política e os princípios de sua natureza espiritual e moral, seus
objetivos e suas ações. O que o historiador coloca em suas bocas não é
uma consciência tomada de empréstimo, mas a própria mentalidade do
orador.
Não existem tantos historiadores quanto se poderia pensar, cujo
estudo minucioso e constante seja necessário se desejamos reviver a
vida das nações, penetrando em seu espírito – historiadores que não
apenas nos proporcionam erudição, mas um prazer autêntico e profundo.
Já mencionamos Heródoto, o pai e fundador da história, e
Tucídides; a Anábase de Xenofonte, um trabalho também original; os
Comentários de César são a obra-prima singela de uma grande mente.
Na antigüidade, esses historiadores eram necessariamente grandes
chefes e governantes. Na Idade Média, tirando-se os bispos que estavam
no centro dos acontecimentos políticos, os monges, simplórios autores
de crônicas, estavam tão isolados do curso dos acontecimentos quanto
os homens da antigüidade a eles estavam ligados. Nos tempos modernos,
tudo isso mudou. Nossas mentes são essencialmente conceituais e
logo transformam todos os acontecimentos em relatórios para comunicação.
Temos excelentes trabalhos desse tipo – simples e concisos – em
especial sobre acontecimentos militares, que podem ser muito bem
comparados com os de César e que chegam a ultrapassá-los em riqueza
de informação e descrição de técnicas e circunstâncias. Disso fazem
parte as "Memórias" dos franceses. Em geral estas eram escritas por
homens inteligentes sobre áreas circunscritas de acontecimentos, com
uma abundância de relatos de fatos isolados, o que torna sua base
histórica um tanto tênue; algumas, como as do Cardeal von Retz, 2 são
verdadeiras obras-primas históricas, que examinam um campo histórico
maior. A Alemanha tem alguns mestres desse tipo: Frederico, o Grande,
com sua Histoire de mon temps, uma notável exceção. Homens assim
devem ter realmente uma elevada posição social, pois somente quando
se está em um ponto elevado se pode observar a situação e notar todos
os detalhes, o que não acontece quando se tem de olhar de baixo para
cima através de um buraquinho.
2. Jean-François Paul de Condi, cardeal von Retz (1614-79), arcebispo de Paris e líder
da Fronda. (Nota de Hartman.)
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OS TRÉS MÉTODOS DE ESCREVER A HISTÓRIA 49
2. O segundo método da história poderia ser chamado de reflexivo.
Esta é a espécie de história que transcende o presente – não no
tempo, mas no espírito. Distinguimos aqui vários tipos:
a. O primeiro é a história universal, ou seja, o exame de toda a
história de um povo, de um país ou do mundo. O principal aqui é a
elaboração do material histórico. O historiador chega a isso com o seu
espírito, que é diferente do espírito do material. O importante aqui é, por
um lado, o princípio com que o autor aborda o conteúdo e o significado
das ações e acontecimentos que descreve e, por outro lado, o seu próprio
método de ,escrever a história. Conosco, alemães, a reflexão e a compreensão
variam muito nesses aspectos, e cada historiador insiste em
seus meios e maneiras característicos. Os ingleses e os franceses têm um
conhecimento mais generalizado de como escrever a história, pois estão
em um nível mais elevado de cultura nacional e universal. Conosco,
cada um cria algo de peculiar para si e, em vez de escrever a história,
continuamos tentando descobrir como a história deveria ser escrita.
O primeiro tipo de história reflexiva está associado à história que
serve de origem, se não tiver outro propósito que não o de apresentar a
totalidade da história de um país. Compilações desse tipo– tais como as
de Lívio, Diodoro da Sicília e a "História da Suíça" de Müller' – são
admiráveis, quando bem realizadas. Neste caso, naturalmente, é melhor
que o escritor se aproxime bastante do primeiro modo, escrevendo de
maneira tão plástica, que o leitor tenha a impressão de estar escutando
a contemporâneos e testemunhas dos acontecimentos. Mas a individualidade
de espírito que deve caracterizar•um escritor pertencente a um
determinado período cultural em geral não está de acordo com o espírito
que domina o período sobre o qual ele escreve. O espírito que fala
através do escritor é totalmente diferente do espírito da época que ele
descreve. Assim, Lívio faz com que seus antigos reis, cônsules e
generais romanos falem à maneira dos perfeitos juristas da era liviana,
contrastando notavelmente com as legítimas tradições da antigüidade
romana, como a fábula de Menenius Agripa. 4 Lívio também nos
proporciona descrições de batalhas como se as tivesse visto com os
próprios olhos, mas suas características são apenas características das
3. Johannes von Müller (1752-1809), Schweizergeschichten, 24 vols. Escrito em
1780-1808 e publicado em 1810. (Nota de Hartman.)
4. Cuja moral diz que ficar com fome faz mal à barriga. (Nota de Hartman.)
batalhas de qualquer período e a sua diferença se contrasta ainda mais
com a ausência de ligação e a inconsistência do tratamento que dá a
outras características, geralmente essenciais. A diferença entre um
compilador desse gênero e um historiador pode ser melhor vista quando
se compara a obra de Lívio com a de Políbio, e a maneira com que Lívio
usa expande e resume os períodos históricos que são preservados no relato
de Políbio. Johannes von Müller, para ser verdadeiro para com o
tempo que descreve, deu à sua história um caráter pomposo, pedante,
falsamente solene. É melhor ler isso no velho Tschudi,5 onde tudo é
mais simples e natural, sem um arcaísmo tão artificial e afetado.
Essa espécie de história, que pretende examinar longos períodos ou
toda a história do mundo, deve abandonar a apresentação individual e
condensar-se por meio de abstrações não apenas no sentido de deixar de
fora acontecimentos e ações, mas também no de fazer do próprio
pensamento o mais eficiente sintetizador. Uma batalha, uma grande
vitória ou um cerco já não são mais eles próprios, porque estão concentrados
em simples afirmações. Quando Lívio fala das guerras com os
Volsci, às vezes diz, resumidamente demais: "Este ano a guerra
prejudicou os Volsci."
b. O segundo tipo de história reflexiva é a pragmática. Ao tratar
do passado, ocupando-se com um mundo distante, abre-se para a mente
uma realidade que surge de sua atividade, como recompensa por seu
trabalho. Isto invalida o passado e torna presente o acontecimento. As
reflexões pragmáticas, não importa o quão abstratas forem, pertencem
realmente ao presente, e as histórias do passado são reanimadas para a
vida atual. O fato de essas reflexões serem realmente interessantes e
cheias de vida depende do espírito do escritor. Parte disso, em especial,
são as reflexões morais e a iluminação moral a originar-se da história,
em nome do que em geral a história é escrita. Embora se deva dizer que
exemplos de bons feitos elevam a alma e deveriam ser usados na
instrução moral das crianças de modo a nelas deixar impressa a virtude
moral, o destino dos povos e nações – seus interesses, suas condições e
seus complicados negócios – é uma questão diferente. Em geral se aconselha
a governantes, estadistas e povos a aprenderem a partir das experiências
da história. Mas o que a experiência e a história ensinam é
5. Aegidius von Tschudi (1505-72), Schweizerchronik, publicado em 1734-36. (Nota
de Hartman.)
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que os povos e governos até agora jamais aprenderam a partir da
história, muito menos agiram segundo as suas lições. Cada época tem
suas próprias condições e está em uma situação individual; as decisões
devem e podem ser tomadas apenas na própria época, de acordo com
ela. No torvelinho das questões mundiais nenhum princípio universal e
nenhuma memória de condições semelhantes poderá ajudar-nos – uma
reminiscência imprecisa não tem força contra a vitalidade e a liberdade
do presente. Nada é mais oco do que os apelos tantas vezes repetidos aos
exemplos gregos e romanos durante a Revolução Francesa; nada é mais
diferente do que a natureza destes povos e a de nosso próprio tempo.
Johannes von Müller teve esse gênero de intenções morais em sua
história universal e também em sua história da Suíça; para esclarecimento
de príncipes, governos e povos, especialmente do povo suíço, ele
preparou sua coleção de lições e reflexões, chegando a dar, em sua
correspondência, o número exato de reflexões produzidas durante a
semana. Mas ele não deve contar esses trabalhos entre suas melhores
obras. Apenas um entendimento meticuloso, livre e abrangente das
situações e a profunda compreensão de sua idéia central – como, por
exemplo, acontece no Espírito das leis, de Montesquieu – podem tornar
tais reflexões verdadeiras e interessantes. Portanto, uma história reflexiva
suplanta a outra. Todo escritor tem acesso aos materiais; cada um
pode se achar capaz de arranjar e elaborá-los, injetando neles seu
espírito e o espírito do momento. Cansados de histórias reflexivas desse
gênero, já se recorreu muitas vezes à apresentação de acontecimentos
.sob todos os ângulos possíveis. É verdade que tais histórias têm algum
valor, mas em geral elas oferecem matéria-prima. Nós, alemães, nos
satisfazemos com elas, mas os franceses criam com energia um presente
para eles, atribuindo ao passado o atual estado das coisas.
c. O terceiro tipo de história reflexiva é a história crítica. Ele deve
ser mencionado, pois é este o modo como a história alemã dos dias de
hoje é escrita. Não é a história cm si que é aqui apresentada, mas antes
a história da historiografia: a avaliação de narrativas históricas e o
exame de sua verdade e confiabil idade. O aspecto notável deste método,
com relação ao fato e à intenção, é a perspicácia do autor, que extrai os
resultados mais das narrativas do que dos acontecimentos . 6 Aqui os
6. Aqui o texto é ambíguo. Também se pode ler entendendo que o aspecto notável deste
método está no autor e não nos acontecimentos. (Nota de Hariman.)
franceses nos proporcionaram muito do que seja profundo e sensato,
mas não tentaram impingir um procedimento totalmente crítico e
histórico. Em vez disso, apresentaram suas avaliações na forma de
tratados críticos. Conosco, a chamada "crítica superior" não apenas se
apossou de toda a filologia, mas também da literatura histórica. A crítica
superior serviu, então, para justificar a introdução de todos os gêneros
de monstruosidade não-histórica da mais pura imaginação. Temos aqui
um outro método de obter uma realidade a partir da história: a substituição
de dados históricos por fantasias subjetivas – fantasias consideradas
mais excelentes quanto mais audaciosas forem, ou seja, quanto
menor sua base factual e quanto maior sua contradição para com os fatos
mais definidos da história.
d. O último tipo de história reflexiva é o que se apresenta abertamente
como fragmentário. Ela é sucinta, mas, ao adotar pontos de
vista universais – por exemplo, a história da arte, da lei, da religião –
forma uma transição para a história filosófica do mundo. Em nosso
tempo, essa espécie de história conceituai tem sido especialmente desenvolvida
e enfatizada. Esses ramos da história se relacionam ao
conjunto da história de um povo; a questão é apenas saber se este
contexto total se torna evidente ou se é mostrado apenas nas relações
externas. No último caso, elas aparecem como características puramente
acidentais de um povo. Mas, quando uma história reflexiva desse
gênero consegue apresentar pontos de vista gerais e estes pontos de vista
são verdadeiros, deve-se admitir que essas histórias são mais do que
simplesmente o fio externo e a ordem de acontecimentos e ações, que
elas são realmente sua alma interna e orientadora. Assim como Mercúrio,
o guia das almas, a Idéia na verdade é o guia dos povos e do mundo; o
Espírito, sua vontade racional e necessária, orienta e sempre orientou o
fluxo dos acontecimentos mundiais. Nosso propósito é aprender a
conhecê-la em sua função orientadora. E isso nos leva ao ...
3. Terceiro método da história, o método filosófico. Pouco havia
a esclarecer nos dois métodos precedentes; seu conceito explicava-se
sozinho. Mas é diferente com este último, que parece realmente exigir
algum comentário ou justificativa. A definição mais universal seria a de
que a filosofia da história não passa da contemplação ponderada da
história. Pensar é uma das coisas que não podemos ajudar ninguém a
fazer; nisto somos diferentes dos animais. Em nossa sensação, per52
A RAZÃO NA HISTÓRIA
cepção e compreensão, em nossos instintos e vontades, enquanto
humanos, há um elemento de ponderação. Mas uma referência ao
pensamento poderá parecer inadequada aqui. Na história, o pensamento
está subordinado aos dados da realidade, que mais tarde servem como
guia e base para os historiadores. Por outro lado, afirma-se que a
filosofia produz suas idéias a partir da especulação, sem levar em conta
os dados fornecidos. Se a filosofia abordasse a história com tais idéias,
poder-se-ia sustentar que ela ameaçaria a história como sua matériaprima,
não a deixando como é, mas moldando-a conforme essas idéias,
construindo-a, por assim dizer, a priori. Mas, como se supõe que a
história compreenda os acontecimentos e ações apenas pelo que são e
foram e que, quanto mais factual, mais verdadeira ela é, parece que o
método da filosofia estaria em contradição com a função da história.
Esta contradição e a acusação trazida, conseqüentemente, contra a
filosofia devem ser explicadas e refutadas aqui. Não devemos, por essa
razão, tentar corrigir as incontáveis representações equivocadas específicas
que são comuns e continuamente voltam sobre os objetivos,
interesses e métodos da história e a sua relação com a filosofia.
II. A RAZÃO COMO BASE DA HISTÓRIA
O único pensamento que a filosofia traz para o tratamento da história
é o conceito simples de Razão, que é a lei do mundo e, portanto, na
história do mundo as coisas aconteceram racionalmente. Essa convicção
e percepção é uma pressuposição da história como tal; na própria
filosofia a pressuposição não existe. A filosofia demonstrou através de
sua reflexão especulativa que a Razão – esta palavra poderá ser aceita
aqui sem maior exame da sua relação com Deus – é ao mesmo tempo
substância e poder infinito, que ela é em si o material infinito de toda
vida natural e espiritual e também é a forma infinita, a realização de si
como conteúdo. Ela é substância, ou seja, é através dela e nela que toda
a realidade tem o seu ser e a sua subsistência. Ela é poder infinito, pois
a Razão não é tão impotente para produzir apenas o ideal, a intenção,
permanecendo em uma existência fora da realidade – sabe-se lá onde –
como algo característico nas cabeças de umas poucas pessoas. Ela é o
conteúdo infinito de toda a essência e verdade, pois não exige, como o
faz a atividade finita, a condição de materiais externos, de meios fornecidos
de onde extrair-se o alimento e os objetos de sua atividade; ela
supre seu próprio alimento e sua própria referência. E ela é forma
infinita, pois apenas em sua imagem e por ordem sua os fenômenos
surgem e começam a viver.' É a sua própria base de existência e meta
final absoluta e realiza esta meta a partir da potencialidade para a
realidade, da fonte interior para a aparência exterior, não apenas no
universal natural, mas também no espiritual, na história do mundo. Que
1. Esta sentença, eliminada na segunda edição, está aqui restaurada conforme a
primeira edição. (Nota de Hartman.)
A RAZÃO COMO BASE DA HISTÓRIA 55
54 A RAZÃO NA HISTÓRIA
esta Idéia ou Razão seja o Verdadeiro Poder Eterno e Absoluto e que
apenas ela e nada mais, sua glória e majestade, manifeste-se no mundo
– como já dissemos, isto já foi provado em filosofia e aqui está sendo
pressuposto como demonstrado.
Aqueles dentre os senhores que não tenham ainda conhecido a
filosofia talvez já tenham sido convidados a participar destas lições
sobre a história do mundo com a crença na Razão, com um desejo, uma
sede por sua compreensão. É realmente esse desejo pela compreensão
racional, pelo conhecimento, e não simplesmente por uma acumulação
de fatos diversos, que deveriam ser pressupostos como aspiração
subjetiva no estudo das ciências. Pois, mesmo que não se estivesse
abordando a história do mundo com a reflexão e o conhecimento da
Razão, pelo menos se deveria ter a fé invencível e firme de que há Razão
na história, acreditando que o mundo da inteligência e da vontade
consciente não está abandonado ao simples acaso, mas deve manifestarse
à luz da Idéia racional. Mas na verdade não tenho de exigir esta fé per
antecipação. O que eu disse aqui provisoriamente e repetirei mais tarde,
deve ser tomado como visão resumida de conjunto, mesmo em nosso
ramo da ciência. Não é uma pressuposição de estudo, é um resultado
que por acaso conheço porque eu já conheço o conjunto. Portanto,
apenas o estudo da história do mundo em si pode mostrar que ela
continuou racionalmente, que ela representa a trajetória racionalmente
necessária do Espírito do Mundo, Espírito este cuja natureza é sempre
a mesma, mas cuja natureza única se desdobra no curso do mundo. Este,
como eu disse, deve ser o resultado da história. A história em si deve ser
tomada como é, temos de seguir adiante histórica e empiricamente.
Entre outras coisas, não devemos nos deixar tentar pelos historiadores
profissionais, pois estes, em especial os alemães, que possuem grande
autoridade, praticam precisamente aquilo de que acusam os filósofos –
ou seja, fazer uma ficção histórica, a priori. Por exemplo, há uma
mentira disseminada que diz que houve um povo original e primitivo
que fora ensinado diretamente por Deus e que era dotado de uma
sabedoria e perspicácia perfeitas, possuindo um conhecimento completo
de todas as leis naturais e verdades espirituais; ou que houvesse
povos assim ou povos sacerdotais como esse; ou, para mencionar uma
questão mais específica, que havia uma epopéia romana da qual os historiadores
romanos tiraram a história inicial – e assim por diante.
Devemos deixar os apriorismos2 desse gênero para os talentosos historiadores
profissionais, entre os quais, pelo menos em nosso país, seu uso
é muito comum. Como nossa primeira condição devemos assim afirmar
que apreendemos fielmente o histórico. Em termos tão generalizados
como "apreendemos" e fielmente" há uma ambigüidade. Até mesmo
o historiador mediano e medíocre, que talvez acredite e simule ser
apenas receptivo, que está apenas entregando-se aos dados, não é
passivo em sua maneira de pensar. Ele traz consigo as suas categorias
e vê os dados através delas. Em tudo o que se supõe ser científico, a
Razão deve ser alerta e a reflexão deve ser aplicada. Para quem olha
racionalmente para o mundo, o mundo olha de volta racionalmente. A
relação é mútua. Mas aqui não podemos tratar os diversos modos de
reflexão, de pontos de vista, de discernimento, nem mesmo os que
dizem respeito à relativa importância ou desimportância dos fatos – a
categoria mais elementar de todas.
Apenas dois aspectos da convicção geral de que a Razão já dominou
no mundo e na história do mundo podem ser levados à sua atenção. Eles
nos proporcionarão uma oportunidade imediata de examinar a nossa
questão mais difícil e indicar o tema principal à frente.
1. O primeiro aspecto é o fato histórico do grego Anaxágoras, o
primeiro a mostrar que a mente (vouç), a compreensão em geral ou a
Razão, domina o mundo – mas não uma inteligência no sentido de uma
consciência individual, não um espírito como tal. Os dois devem ser
cuidadosamente distinguidos. O movimento do sistema solar continua
segundo leis imutáveis e estas leis são a sua razão. Mas, nem o sol nem
os planetas, que, segundo tais leis, giram em torno dele, têm qualquer
consciência disso. Assim, não nos surpreende a idéia de que há Razão
na natureza, de que a natureza é governada por leis universais e
imutáveis – estamos habituados a isso e não lhe damos muita importância.
Esta circunstância histórica também nos ensina uma lição de
história: as coisas que parecem comuns para nós nem sempre estiveram
no mundo; um pensamento novo como esse marca uma época no
desenvolvimento do espírito humano. Aristóteles diz que Anaxágoras,
como originador deste pensamento, parecia um homem sóbrio entre os
2. "Autoridades" (Autoritãten), que aparece em edições anteriores, era um malentendido.
O texto original diz Aprioritüten. (Nota de lIartman.)
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A RAZÃO NA HISTÓRIA A RAZÃO COMO BASE DA HISTÓRIA
57
bêbados. Sócrates adotou a doutrina de Anaxágoras, que daí por diante
se tornou a idéia dominante na filosofia, com exceção da escola de
Epicuro, que atribuía todos os acontecimentos ao acaso. "Fiquei
encantado com isso," Platão faz Sócrates dizer, "e esperava haver
encontrado um mestre que interpretasse a Natureza através da Razão e
que me mostrasse no particular o seu objetivo particular e no universal,
o objetivo universal. Eu não deveria desistir dessa esperança por nada,
mas fiquei enormente desapontado depois de, tendo-me aplicado zelosamente
aos escritos de Anaxágoras, descobri que ele menciona apenas as
causas externas, como o Ar, o Éter, a Água e similares, em vez da
Razão."3 É evidente que a insuficiência que Sócrates descobriu em
Anaxágoras nada tem a ver com o princípio em si, mas com a falha de
Anaxágoras em aplicá-lo à natureza concreta. A natureza não foi
entendida ou compreendida através deste princípio; o princípio continuou
abstrato – a natureza não foi compreendida como um desenvolvimento
da Razão, como uma organização produzida por ela. Desejo
logo de início atrair a atenção para esta diferença entre um conceito, um
princípio ou uma verdade confinados ao abstrato e determinando
aplicação e desenvolvimento concretos. Esta diferença é fundamental.
2. O segundo ponto é a ligação histórica do pensamento de que a
Razão governa o mundo com uma outra forma, bem conhecida para nós
– a forma da verdade religiosa: o mundo não está abandonado ao acaso
e a acidentes externos, mas é controlado pela Providência. Eu já disse
antes que não exijo a crença no princípio anunciado, mas penso que
poderia apelar a esta crença em sua forma religiosa, a menos que a
natureza da filosofia científica impeça, como regra geral, a aceitação de
quaisquer pressuposições; ou, visto por outro ângulo, a menos que a
própria ciência que desejamos desenvolver dê provas, senão da verdade,
pelo menos da exatidão de nosso princípio. A verdade de que uma
Providência, ou seja, uma Providência divina, preside aos acontecimentos
do mundo corresponde ao nosso princípio, pois a Providência divina
é a sabedoria dotada de infinito poder que realiza o seu objetivo, ou seja,
o objetivo final, racional e absoluto do mundo. A Razão é o Pensamento
determinando-se em absoluta liberdade.
3.Fedo, 97-98. Hegel parafraseia esta passagem. Ver em Fedo, de Platão, na tradução
para o inglês de F. J. Church, editada por F. H. Anderson (Nova York, Liberal Arts Press),
pp. 50s. (Nota de Hartman.)
Por outro lado, surge agora uma diferença, na verdade uma oposição,
entre essa fé e o nosso princípio, muito como a que havia entre a
expectativa de Sócrates e o princípio de Anaxágoras. Essa fé também é
indefinida, é o que é chamado de fé na Providência em geral; ela não é
seguida na aplicação definida ao conjunto, no curso abrangente da
história do mundo. Explicar a história significa revelar as paixões dos
homens, seu caráter, suas forças ativas. Esta exatidão da Providência
normalmente é chamada de seu plano. Mas supõe-se que este plano
esteja oculto de nossa vista; o desejo de identificá-lo chega a ser
considerado presunção. Na realidade, a ignorância de Anaxágoras sobre
a manifestação da Razão foi ingênua, o conhecimento do princípio não
havia ainda sido desenvolvido, nem por ele, nem pela Grécia em geral.
Ele ainda não era capaz de aplicar o seu princípio geral ao concreto, de
deduzir o último a partir do primeiro. Apenas Sócrates deu o primeiro
passo na compreensão da união do concreto como universal. Anaxágoras,
na época, não se opunha a essa aplicação, mas a fé na Providência
se opõe. Ela se opõe no mínimo à aplicação generalizada de nosso
princípio, ao conhecimento do plano da Providência. É verdade que em
casos especiais se permite isso aqui e ali, quando as mentes piedosas
enxergam em certos acontecimentos não apenas o acaso, mas a vontade
de Deus – quando, por exemplo, um indivíduo em grande perplexidade
e necessidade obtém uma ajuda inesperada. Mas esses exemplos estão
limitados aos propósitos particulares deste indivíduo. Na história do
mundo, os "indivíduos" de quem devemos tratar são os povos, eles são
totalidades que são Estados. Não podemos, portanto, estar satisfeitos
com o que chamamos de visão "pormenorizada" da fé na Providência,
nem com a fé indeterminada, simplesmente abstrata, na afirmação
universal de que existe uma Providência, sem a determinação de seus
atos definidos. Ao contrário, devemos tentar seriamente reconhecer os
caminhos da Providência, os seus significados e as suas manifestações
na história, e seu relacionamento com o nosso princípio universal.
Mas, ao mencionar qualquer reconhecimento do plano da Providência
divina, toquei em uma questão proeminente em nossos dias, a
questão de saber-se se é possível reconhecer a Deus – ou, a partir do
momento em que isso deixa de ser uma discussão, a doutrina, que agora
se tornou um preconceito, de que é impossível conhecer a Deus.
Seguindo esta doutrina, agora contradizemos aquilo que ordena a
Sagrada Escritura como nosso mais elevado dever, ou seja, não apenas
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A RAZÃO NA HISTÓRIA
A RAZÃO COMO BASE DA HISTÓRIA
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amar, mas também conhecer a Deus. Categoricamente agora negamos
o que está escrito, ou seja, que é o espírito que leva à verdade, que conhece
todas as coisas e que penetra até mesmo as profundezas da
divindade. Assim, ao colocar o Ser Divino além de nosso conhecimento
e do âmbito de todas as coisas humanas, obtemos a permissão muito
conveniente de satisfazer às nossas fantasias. Estamos liberados da
necessidade de atribuir o nosso conhecimento ao Verdadeiro e Divino.
Ao contrário, a vaidade do conhecimento e a subjetividade do sentimento
têm agora ampla justificação. A humildade piedosa, ao manter
o verdadeiro reconhecimento de Deus ao alcance da mão, sabe muito
bem o que obtém por seu esforço arbitrário e vão.
Eu gostaria de discutir a ligação da nossa tese — de que a Razão
governa e governou o mundo—com a questão do possível conhecimento
de Deus, principalmente para que se possa mencionar a acusação que a
filosofia evita ou deve evitar, a discussão de verdades religiosas, porque
ela tem, por assim dizer, uma consciência m á a respeito destas verdades.
Ao contrário, o fato é que nesses últimos tempos a filosofia teve de
assumir a defesa de verdades religiosas contra muitos sistemas teológicos.
Na religião cristã Deus Se revelou, o que significa que Ele deu ao
homem a capacidade de compreender o que Ele é, não sendo mais
oculto e secreto. Com esta possibilidade de conhecer a Deus, a obrigação
de conhecê-lo nos é imposta. Deus deseja estreitar as almas e
esvaziar a mente de seus filhos; Ele quer o nosso espírito, em si
realmente pobre, rico no conhecimento Dele, sustentando que este
conhecimento seja de supremo valor. O desenvolvimento do espírito
pensante só começou com esta revelação"da essência divina. Ele agora
deve progredir em direção à compreensão intelectual do que originalmente
estava presente apenas para o espírito que sentia e imaginava.
[O sentimento é a forma inferior em que pode existir qualquer
conteúdo mental. Deus é o Ser Eterno em e para si mesmo; aquilo que
é original em e para si mesmo é sujeito do pensamento, e não do
sentimento. É verdade que tudo que é espiritual, todo o conteúdo da
consciência, qualquer coisa que é produto e sujeito do pensamento—em
especial a religião e a moralidade— também deve, e originalmente o faz,
existir no modo do sentimento. Mas o sentimento não é a fonte de onde
este conteúdo flui para o homem, mas apenas um modo primitivo em que
ele existe no homem. É realmente o pior modo, um modo que o homem
tem em comum com o animal. O que é substancial também deve existir
no sentimento, mas existe principalmente em uma forma superior, mais
dignificada. Se se deseja relegar conteúdo moral, mais verdadeiro, o
mais espiritual, ao sentimento e à emoção, mantendo-o ali em cima do
princípio geral, deve-se atribuir a este conteúdo essencialmente a
forma animal — mas esta não é de maneira alguma capaz de conter o
espírito. No sentimento, o conteúdo mental é o menor possível, está presente
em sua forma mais baixa possível. Até onde ele ainda estiver no
sentimento, está velado e totalmente indefinido. Ainda é inteiramente
subjetivo, presente exclusivamente na forma subjetiva. Se alguém?! diz:
"Sinto isso e isso assim e assim", essa pessoa isolou-se em si mesmo.
Todo o resto das pessoas tem o mesmo direito de dizer: "Não sinto nada
disso". E assim o indivíduo saiu do terreno comum de entendimento.
Em assuntos totalmente pessoais, o sentimento está em todo o seu
direito. Sustentar que todos os homens tenham -isso ois-aquilo em seu
sentimento é uma contradição em termos; contradiz o conceito de
sentimento, o ponto de vista da subjetividade individual de cada um que
assumiu esta afirmação. Enquanto o conteúdo mental . é colocado no
sentimento, todos estão reduzidos a seu ponto de vista subjetivo. Se
alguém chama a outro desse ou daquele epíteto, o outro estaria autorizado
a devolver-lhe, e ambos, a partir de seus respectivos pontos de
vista, estariam autorizados a ofender-se mutuamente. Se alguém diz quê
tem a religião em seu sentimento e o outro, que não vê nenhum Deus em
seu sentimento, ambos estão certos. Se nesta maneira o conteúdo divino
— a revelação de Deus, o relacionamento de Deus ao homem, o ser de
Deus para o homem — está reduzido ao sentimento puro, ele está
reduzido à subjetividade pura, ao arbitrário, ao capricho. Dessa maneira,
o indivíduo realmente se livra da verdade como ela é em e para
si mesma. A verdade é universal em e para si mesma, essencial, substancial;
como tal ela só pode estar no e ser para o pensamento.] Finalmente
chegou o momento para compreender também o rico produto da Razão
criativa que é a história do mundo.
Por algum tempo foi moda admirar-se a sabedoria de Deus nas vidas
dos animais, das plantas e dos seres humanos. Se admitimos que a
Providência se manifesta nesses objetos e nesses materiais, por que não
também na história do mundo? Porque seu alcance parece ser grande
demais; no entanto, a sabedoria divina, ou Razão, é a mesma tanto no
grande quanto no pequeno. Não devemos imaginar que Deus seja fraco
60
A RAZÃO NA HISTÓRIA
demais para exercer a sua sabedoria em uma grande escala. Nossa luta
intelectual visa reconhecer que aquilo que a sabedoria eterna tencionava
ela na verdade realizou, dinamicamente ativa no mundo, ao
mesmo tempo no reino da natureza e no reino do espírito. Neste aspecto
o nosso método é uma teodicéia, uma justificação de Deus, algo que
Leibniz tentou metafisicamente, à sua maneira, através de categorias
abstratas indeterminadas. Nestes termos o mal no mundo seria compreendido
e a mente pensante estaria reconciliada com ele. Não existe
realmente em lugar algum maior desafio a esta reconciliação do que na
história do mundo. Essa reconciliação só poderá ser atingida através do
reconhecimento dos elementos positivos em que o elemento negativo
desaparece como algo subordinado e derrotado. Isto é possível, por um
lado, através da consciência do verdadeiro objetivo fundamental do
mundo e, por outro lado, na consciência do fato de que este objetivo foi
realizado no mundo e que o mal não pode finalmente prevalecer além
dela. Para este fim a simples crença no vou; e na providência não
bastam. A "Razão", que se diz governar o mundo, é uma expressão tão
indefinida quanto a "Providência". Sempre se fala de Razão sem a
capacidade de indicar sua definição, seu conteúdo, que sozinho nos
permitiria julgar se alguma coisa é racional ou irracional. O que precisamos
é de uma definição adequada de Razão, pois sem esta definição
não podemos ir além de simples palavras. Com isso, vamos ao segundo
ponto que desejamos levar em consideração.
III. A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
A questão de como a Razão é determinada em si e o que é a sua
relação para com o mundo coincide com a questão: qual é objetivo final
do mundo? Esta questão pressupõe que o objetivo seja realizado e
compreendido. Duas coisas devem, então, ser levadas em consideração:
em primeiro lugar, o conteúdo deste objetivo final, a sua determinação
como tal e, em segundo lugar, a sua compreensão.
Para início de conversa, deve-se observar que a história do mundo
está no domínio do Espírito. A palavra "mundo" inclui a natureza
física e ã natureza psíquica. A natureza física desempenha um papel na
história do mundo e, desde o começo, devemos chamar a atenção para
as relações naturais fundamentais envolvidas nisso. Mas o Espírito e o
rumo de seu desenvolvimento são a matéria da história. Não devemos
contemplar a natureza como um sistema racional em si, em seu domínio
particular, mas apenas em sua relação para com o Espírito.
[Depois da criação da natureza surge o Homem. Ele constitui a
antítese ao mundo natural, é o ser que se eleva até o segundo inundo.
Temos dois reinos em nossa consciência universal, o reino da Natureza
e o reino do Espírito. O reino do Espírito consiste naquilo que é
apresentado pelo homem. Pode-se ter todo tipo de idéias a respeito do
Reino de Deus, mas sempre haverá um reino do Espírito para ser
claramente compreendido e realizado no homem.
O reino do Espírito abrange tudo, inclui tudo aquilo que alguma vez
interessou ou interessará ao homem. O homem é ativo nele – seja o que
for que faça, o homem é a criatura na qual o Espírito obra. Por isso é
interessante, no correr da história, aprender a conhecer a natureza
62
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
63
espiritual em sua existência, ou seja, o ponto em que se unem o Espírito
e a Natureza, que integram a natureza humana. Ao falar de natureza
humana, queremos dizer algo permanente. O conceito de natureza deve
adaptar-se a todos os homens e a todas as eras, passado e presente. Este
conceito universal poderá passar por infinitas modificações, mas, na
verdade, o universal é a mesmíssima essência em suas mais variadas
modificações. A reflexão racional menospreza as variações e atém-se
ao universal, que sob todas as circunstâncias está ativo na mesma
modalidade e se manifesta no mesmo interesse. O tipo universal
aparece até mesmo no que mais parece afastar-se dele; em sua forma
mais distorcida podemos ainda distinguir o ser humano. ...
Essa espécie de reflexão vem do conteúdo, o objetivo da atividade
humana. ... Mas a mente humana cultivada não pode deixar de fazer
distinções entre inclinações e desejos quando estes se manifestam em
pequenas circunstâncias e quando aparecem na luta dos interesses
históricos mundiais. Aqui surge um interesse objetivo, que nos impressiona
em dois aspectos: o do objetivo universal e o do indivíduo, que
representa este objetivo. É isto que faz a história tão fascinante. São
estes objetivos e indivíduos cuja perda e cuja queda lamentamos.
Quando temos diante de nós a luta dos gregos contra os persas ou
contra o poderoso domínio deAlexandre, sabemos muito bem o que nos
interessa. Desejamos ver os gregos livres do barbarismo, desejamos ver
o Estado ateniense preservado e estamos interessados no governante
sob cuja liderança os gregos subjugaram a Ásia. Se fosse apenas uma
questão de paixão humana, não sentiríamos nenhuma perda ao imaginar
que Alexandre teria falhado em sua empresa. Estaríamos muito
contentes ao ver aqui um simples jogo de paixões, mas não nos sentiríamos
satisfeitos. Temos aqui uni interesse material, objetivo. ...
Ao contemplar a história do mundo, devemos considerar seu objetivo
final. Este objetivo final é aquilo que é determinado no mundo em
si. De Deus sabemos que é o mais perfeito, Ele pode controlar apenas
a si mesmo e ao que é como Ele. Deus e a natureza de Sua vontade são
a mesma coisa; a isto chamamos, filosoficamente, a Idéia. Por isso
temos de contemplar à Idéia em geral, em sua manifestação como
espírito humano. Mais precisamente, a idéia de liberdade humana. A
mais pura forma em que a Idéia se manifesta é o Pensamento em si.
Neste aspecto a Idéia é tratada na Lógica. Uma outra forma é a de
Natureza física.' Finalmente, a terceira forma é a de Espírito em geral.]
O Espírito apresenta-se em sua realidade mais concreta na fase em que
o observamos, a de história do mundo. Entretanto – ou antes, para que
se possa entender também a idéia geral desta existência concreta do
Espírito –, devemos expor, em primeiro lugar, uma certa definição geral
da natureza do Espírito. Mas isto só pode ser feito aqui como simples
defesa; não é este o lugar para desenvolver-se a idéia de Espírito através
da especulação filosófica. Como foi mencionado acima, o que pode ser
dito em uma introdução* só pode ser tomado historicamente – como
hipótese a ser explicada e comprovada em outro lugar ou a ser verificada
pela própria ciência da história.
Portanto, temos a indicar aqui:
1. as características abstratas da natureza do Espírito,
2. os meios que o Espírito usa para compreender sua Idéia,
3. a forma que a plena compreensão do Espírito assume na existência:
o Estado.
1. A IDÉIA DE LIBERDADE
A natureza do Espírito poderá ser compreendida com uma espiada
na direção oposta – a matéria. A essência da matéria é a gravidade e a
essência do Espírito – sua matéria – é a Liberdade. Torna-se imediatamente
plausível a todos o fato de que, entre outras propriedades, o
Espírito também possui a Liberdade. Mas a filosofia nos ensina que
todas as propriedades do Espírito só existem através da Liberdade.
Todas são apenas meios para se atingir a Liberdade; todas buscam e
apresentam isto e unicamente isto. A filosofia especulativa discerne o
fato de ser a Liberdade a única verdade do Espírito. A matéria possui
gravidade em virtude de sua tendência em direção a um ponto central,
ela é essencialmente composta, consistindo de partes que mutuamente
sc excluem. Ela busca sua unidade e, por esse meio, sua própria
1. Neste aspecto, a Idéia é tratada na Filosofia da natureza. (Nota de Hartman.)
* Lembrar que A Razão na História é a introdução para as Liçóes sobre a Filosofia da
História. (Nota da tradutora.)
64 A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO

65
extinção; ela busca ao seu oposto? Se ela chegasse a isso, já não seria
mais matéria, teria deixado de existir. Ela se empenha pela idealidade,
pois na unidade ela existe idealmente. O Espírito, ao contrário, é aquilo
que tem o seu centro em si mesmo. Ele não tem unidade fora de si, mas
a encontrou: está em si e consigo. A matéria tem sua substância fora de
si, o Espírito é o Ser-em-si-mesmo (a existência autocontida). Mas, a
Liberdade é precisamente isto. Pois, quando eu sou dependente, refirome
a algo que não sou, não posso existir independentemente de algo
externo. Eu sou livre quando estou comigo. Essa existência autocontida
do Espírito é a consciência própria, a consciência de si.
Duas coisas devem ser distinguidas na consciência: em primeiro
lugar, que eu sei e, em segundo, o quê eu sei. Na consciência própria
ambas coincidem, pois o Espírito conhece a si mesmo. Ele é a capacidade
de discernir de sua própria natureza e, ao mesmo tempo, é a
operação de chegar a si mesmo, de se mostrar, de tornar-se (realmente)
aquilo que está em si (potencialmente). Seguindo esta definição abstrata,
pode-se dizer que a história do mundo é a exposição do espírito
em luta para chegar ao conhecimento de sua própria natureza. Assim
como o germe contém em si toda a natureza da árvore, o sabor e a forma
de seu fruto, os primeiros vestígios do Espírito virtualmente contêm o
conjunto da história. Os orientais ainda não sabem que o Espírito – o
Homem, como tal – é livre. E, como não o sabem, não são livres. Eles
apenas sabem que um é livre; mas, por isso mesmo, essa liberdade é um
simples capricho, ferocidade, cegueira da paixão ou, quem sabe, a
suavidade e docilidade do desejo – o que, mais uma vez, nada é senão
um acidente da natureza e assim, mais uma vez, o capricho. Este um é,
portanto, apenas um déspota e não um homem livre. A consciência da
liberdade surgiu primeiro entre os gregos e, portanto, eles eram livres.
Mas eles, como também os romanos, apenas sabiam que alguns são
livres – não o homem em si. Isto nem Platão nem Aristóteles sabiam. Por
essa razão, os gregos não apenas tinham a escravidão, sobre a qual
baseavam toda a sua vida e a manutenção de sua esplêndida liberdade,
mas essa liberdade deles era em si, em parte, uma evolução acidental,
passageira e limitada e, parte, uma grave sujeição da natureza humana.
Só os povos germânicos, através da cristandade, é que vieram a com-
2. Ver Eitcyklopãdie der philosophischen Wissenschaften, par. 262. (Nota de Hartma
n.)
preender que o homem é livre e que a liberdade de espírito é a própria
essência da natureza humana. Esta consciência surgiu primeiro na
religião, na região mais interior do espírito'; mas introduzi-la no mundo
leigo era uma tarefa maior que só poderia ser resolvida e cumprida
através de um demorado e rigoroso esforço de civilização. Assim, a
escravidão não cessou imediatamente com a aceitação da religião
cristã. A liberdade não predominou repentinamente nos Estados, nem a
razão nos governos e constituições. A aplicação do princípio às condições
seculares, toda a moldagem e interpenetração da sociedade
constituída por este princípio, é precisamente o demorado processo da
história. Já chamei a atenção para essa distinção entre um princípio
como esse e sua aplicação, sua introdução e sua execução na realidade
da vida e do espírito. Este é um fato de importância fundamental em
nossa ciência, que se deve manter sempre em mente. Assim como já o
observamos nos princípios cristãos da consciência de si e da liberdade,
ele se manifesta no princípio da liberdade, em geral. A história do
mundo é o avanço da consciência da liberdade – um avanço cuja
necessidade temos de investigar.
A afirmação preliminar acima, a respeito dos diversos graus na
consciência da liberdade –quando dissemos que os orientais sabiam que
apenas um é livre, os gregos e romanos que alguns são livres, ao passo
que nós sabemos que todos os homens, de maneira absoluta, ou seja,
como homens, são livres –, é, ao mesmo tempo, a divisão natural da
história do mundo e o modo como devemos tratá-la. Mas isto é
mencionado apenas de passagem; devemos antes explicar alguns outros
conceitos.
Estabelecemos a consciência da liberdade do Espírito e, com isso, a
realização dessa Liberdade como objetivo final do mundo. O mundo
espiritual é a substância da realidade e o mundo físico permanece a ele
subordinado, ou, em termos de filosofia especulativa, não tem uma
verdade se comparado ao primeiro. A palavra "liberdade", sem maiores
qualificações, é indefinida e infinitamente ambígua. Sendo o conceito
mais elevado, está sujeito a uma infinidade de mal-entendidos, confusões
e equívocos, podendo dar origem a todo gênero de possíveis
exorbitâncias. Tudo isso jamais foi tão limpidamente sabido e sentido
3.... do povo judeu; verFilosofia da História do inundo, 3' parte, 3' seção, cap. 2. (Nota
de Hal-Unau.)
66 A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
67
como hoje. Mas, por enquanto, devemos nos contentar com esta palavra
generalizante e um tanto indefinida. A atenção também foi atraída para
a importância da infinita diferença entre o princípio, como o que até o
momento apenas existe em si, no abstrato, e o que é real. Ao mesmo
tempo, é a própria Liberdade que compreende dentro de si a infinita necessidade
de levar-se até à consciência e, assim, como o conhecimento
de si é sua própria natureza, até à realidade. A Liberdade em si é o seu
próprio objetivo e o propósito único do Espírito. Ela é a finalidade
última para a qual toda a história do mundo sempre se voltou. Para este
fim, todos os sacrifícios têm sido oferecidos no imenso altar da terra por
toda a demorada passagem das eras. Só a Liberdade é a finalidade que
se compreende claramente e se completa em si mesma, o único pólo
duradouro estável na mudança de acontecimentos e condições, o único
princípio verdadeiramente eficaz que interpenetra o todo. Este objetivo
final é o propósito de Deus para com o mundo. Mas Deus é o Ser
absolutamente perfeito e, portanto, pode resolver tudo por Si, por Sua
própria vontade. A natureza de Sua própria vontade, Sua própria
natureza, é aquilo que aqui chamamos de Idéia de liberdade. Assim,
traduzimos a linguagem da religião para a da filosofia. Nossa próxima
pergunta é: que meios a Idéia utiliza para sua compreensão? Este é o
segundo ponto que temos a considerar.
2. OS MEIOS PARA COMPREENSÃO
a. A idéia e o indivíduo
A questão dos meios pelos quais a Liberdade se desenvolve em um
mundo nos leva diretamente ao fenômeno da história. Embora a
Liberdade em si seja essencialmente uma idéia interior não desenvolvida,
os meios que ela usa são os fenômenos exteriores que na
história se apresentam diretamente aos nossos olhos. Uma primeira
olhadela na história nos convence de que as ações dos homens emanam
de suas necessidades, suas paixões, seus interesses, suas qualidades e
seus talentos. É como se realmente nesse drama de atividades todas
essas necessidades, paixões e interesses, fossem a causa e o principal
motivo da ação. É verdade que este drama envolve também objetivos
universais – benevolência ou nobre patriotismo, virtude e objetivos
esses deveras insignificantes no vasto quadro da história. Talvez se
possa ver o ideal da Razão realizado naqueles que adotam tais objetivos
e na esfera de suas influências; entretanto, seu número é mínimo em
proporção à massa da raça humana e sua influência, proporcionalmente
limitada. Paixões, objetivos particulares e satisfação de desejos egoístas
são, ao contrário, formidáveis motivos de ação. Sua força está em que
eles não respeitam nenhuma das limitações que a lei e a moralidade
impor-lhes-iam e no fato de que estes impulsos naturais estão mais
próximos da essência da natureza humana do que a disciplina artificial
e maçante que tende à ordem, ao autodomínio, à lei e à moralidade.
Quando examinamos este mostruário de paixões e as conseqüências
de sua violência, o absurdo associado não apenas a eles, mas até
(diríamos antes especialmente) com os planos bons e os objetivos
honestos e quando vemos surgir daí o mal, o vício, a ruína que
ocorreram aos reinos mais florescentes que a mente humana jamais
criou, mal podemos evitar encher-nos de tristeza com essa mancha
universal de corrupção. E, como esta decadência não é obra da natureza
simples, mas da vontade humana, nossas reflexões podem muito bem
levar-nos a um pesar moral, uma repulsa pela vontade boa (o espírito)
– se é que esta tem realmente espaço dentro de nós. Sem exagero
retórico, um simples relato verdadeiro das desgraças que destruíram os
mais nobres governos e as mais nobres nações e os melhores exemplares
da virtude privada forma um quadro assustador, despertando emoções
da mais profunda e mais desesperançada tristeza, sem a compensação
de um resultado consolador. Podemos suportá-lo fortalecendo-nos
contra isto apenas pensando que assim deveria ser – é o destino, nada se
pode fazer. Por fim, saindo do aborrecimento com que esta dolorosa
reflexão nos ameaça, voltamos à vitalidade do presente, para nossos
objetivos e os interesses do momento. Resum indo: voltamos ao egoísmo
que está na praia tranqüila, gozando em segurança o distante espetáculo
do naufrágio e da confusão.
Ao contemplar a história como sendo o cadafalso em que foram
sacrificadas a felicidade dos povos, a sabedoria dos Estados e a virtude
dos indivíduos, necessariamente surge uma pergunta: para que princípio,
a que objetivo final foram oferecidos estes sacrifícios monstruosos?
Daí, em geral, voltamos ao ponto de partida de nossa investigação:
os acontecimentos que constituem este quadro de emoção carregada e
reflexão profunda são apenas os meios para compreender o destino
essencial, o objetivo final absoluto ou, o que vem a dar no mesmo, o
68 A RAZÃO NA HISTÓRIA
verdadeiro resultado da história do mundo. Todo esse tempo evitamos
propositadamente este método de reflexão que emana dessa questão de
princípios particulares passando a princípios gerais. Além disso, não
está no interesse de reflexões sentimentais desse gênero colocar-se
realmente acima dessas emoções deprimentes, resolvendo os mistérios
da Providência que se apresentam em tais contemplações. É antes
natureza sua residir melancolicamente nas subliminidades vazias e
infrutíferas de seu resultado negativo. Por esta razão, voltamos ao nosso
ponto de vista de origem. O que temos a dizer sobre isso também _
responderá às perguntas em que nos coloca este panorama da história.
A primeira coisa que observamos – algo que já foi enfatizado mais
de uma vez antes, mas que não se pode repetir muitas vezes, pois
pertence ao ponto central de nossa investigação – é a natureza geral e
abstrata daquilo a que chamamos princípio, objetivo final, destino ou
natureza e conceito de Espírito. Um princípio, uma lei, é algo implícito
que, como tal, por mais verdadeiro que seja em si, não é totalmente real.
Objetivos, princípios e similares estão inicialmente em nossos pensamentos,
nossa intenção interna. Ainda não são uma realidade. O que
existe em si é uma possibilidade, uma disposição. Ainda não saiu de sua
condição implícita para a existência. Um segundo elemento deve ser
acrescentado para que se torne realidade, ou seja, atividade, atuação,
realização. O princípio disso é a vontade, a atividade do homem em
geral. É somente através dessa atividade que o conceito e suas determinações
implícitas ("sendo-em-si-mesmas") podem ser realizadas,
efetivadas, pois, por si, elas são impotentes. A atividade que as coloca
em funcionamento e em existência é a necessidade, o instinto, a
inclinação e a paixão do homem. Quando tenho uma idéia, fico muito
interessado em transformá-la em ação, em realidade. Desejo encontrar
minha própria satisfação na sua realização, através da minha participação.
Um objetivo para o qual eu tenha de agir deverá ser o meu
objetivo, por ele deve satisfazer aos meus desejos, mesmo que tenha
diversos aspectos que não me preocupem. O infinito direito do indivíduo
é encontrar-se satisfeito em sua atividade e trabalho. Se os
homens se interessam por alguma coisa, devem ter seu coração naquilo.
Os sentimentos de importância pessoal devem ser satisfeitos. Mas aqui
há um equívoco que se deve evitar. Dizer que o indivíduo "tem um
interesse" em algo é visto como censura ou reprimenda, deixamos
implícito que ele apenas está atrás de vantagens pessoais. A censura
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO 69
realmente não apenas contém implícita sua indiferença para com o
interesse comum, mas para com o fato de o homem tirar vantagem disso
e mesmo de sacrificá-lo em seu próprio benefício. Quem é ativo por uma
causa não está apenas "interessado" e, sim, "interessado nela". A
linguagem expressa fielmente esta distinção. Nada portanto acontece,
nada é realizado, a não ser que os preocupados com uma questão
encontrem sua satisfação nela. São indivíduos particulares, têm suas
necessidades, instintos e interesses especiais. Têm seus desejos e
vontades particulares, sua própria percepção e convicção ou, pelo
menos, sua atitude e sua opinião, uma vez despertadas as aspirações
para refletir, compreender e raciocinar. Por isso, as pessoas precisam
que uma causa pela qual devam agir esteja de acordo com suas idéias e
esperam que a sua opinião – a respeito de suas boas qualidades, justeza,
vantagem, lucro – seja levada em consideração. Isto é de importância
especial hoje, quando as pessoas são levadas a apoiar uma causa não por
confiança na autoridade de uma outra pessoa, mas antes baseadas em
sua capacidade de discernimento e convicção.
Afirmamos, então, que nada foi realizado sem um interesse de parte
dos que o provocaram. Se o "interesse" for chamado de "paixão" –
porque toda a individualidade concentra todos os seus desejos e forças,
com todas as fibras da vontade para descuido de todos os outros
interesses e objetivos reais ou possíveis, em um objeto –, podemos,
então, afirmar sem qualificação que nada de grandioso no inundo foi
realizado sem paixão.
E assim entram dois elementos em nossa investigação: o primeiro,
a Idéia, e depois, o complexo das paixões humanas – um, a urdidura, o
outro, a trama da imensa tapeçaria da história do mundo. Sua ligação e
união concreta constituem a liberdade moral no Estado. Já falamos da
Idéia de liberdade como sendo a essência do Espírito e o objetivo
positivamente final da história. A paixão é encarada como algo de
errado, algo mais ou menos mau; o homem não deve ter paixões. É
verdade, "paixão" não é exatamente a palavra certa para o que quero
expressar. Não pretendo mostrar aqui mais do que a atividade humana
resultante do interesse privado, de planos especiais ou, se é melhor,
planos pessoais – com essa qualificação: de que toda a energia da
vontade e do caráter seja dedicada à consecução de um objetivo e que
os outros interesses ou objetivos possíveis, tudo o mais, realmente, seja
sacrificado a esse objetivo. Esse objetivo determinado está tão ligado à
70 A RAZÃO NA IIISTOFtlA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO

71
vontade da pessoa que sozinho ele determina inteiramente sua direção
e sua forma inalienável. É isso que faz da pessoa o que ela é. Uma pessoa
é uma existência específica. Não é um homem qualquer– isto não existe
- mas um determinado ser humano. A palavra "caráter" também expressa
esta singularidade de vontade e inteligência. Entretando, o
caráter abrange quaisquer aspectos individuais – a maneira como um
indivíduo se conduz em suas relações pessoais e outras. Ele não conota
essa individualidade em si na sua fase ativa e prática. Usarei, portanto,
a palavra "paixão" para expressar a particularidade de um caráter até
onde suas vontades individuais não tenham apenas um conteúdo especial,
mas proporcionem também a força que age e dá impulso a feitos de
alcance universal. Assim, a paixão é o aspecto subjetivo e formal da
energia, da vontade e da atividade, cujo conteúdo e objetivo, a essa
altura, ainda não estão determinados: Existe uma relação semelhante
entre a convicção, a percepção e a consciência individuais, por um lado,
e seu conteúdo, por outro. Se alguém desejar decidir se a minha
convicção e a minha paixão são verdadeiras e firmes, deverá levar em
consideração o conteúdo dá minha convicção e o objetivo da minha
paixão. Ao contrário, sendo verdadeiras e firmes, inevitavelmente terão
uma existência real.
A partir deste comentário sobre o segundo elemento essencial na
encarnação histórica de um objetivo, inferimos – dando uma rápida
espiada na instituição do Estado – que um Estado está bem constituído
e é vigoroso internamente quando o interesse privado de seus cidadãos
tem o mesmo interesse em comum com o Estado, um encontrando
gratificação e realização no outro, o qúe é uma proposição importantíssima.
Mas em um Estado são necessárias muitas instituições –
arranjos políticos criativos e adequados, seguidos por demoradas lutas
intelectuais para que se descubra o que realmente serve, envolvendo
também lutas com os interesses e as paixões particulares, que devem ser
harmonizadas com uma disciplina maçante e difícil. Quando o Estado
atinge esta harmonia, ele chegou ao período de seu florescimento, sua
excelência, seu poder e sua prosperidade. Mas a história do mundo não
começa com qualquer objetivo consciente, como acontece com determinados
círculos dos homens. O simples instinto social contém implícito
o objetivo consciente de assegurar a vida e a propriedade; uma
vez estabelecida esta sociedade fundamental, o objetivo torna-se mais
abrangente. A história do mundo dá início ao seu objetivo geral –
compreender a idéia de Espírito – apenas em uma forma implícita (an
sich), ou seja, como Natureza, como um instinto muito profundo e
inconsciente. Todo o processo da história volta-se, então, para trazê-lo
à consciência. Assim, aparecendo em forma de natureza, de vontade
natural, aquilo que chamamos de lado subjetivo é existência real,
imediata (für sich): necessidade, instinto, paixão, interesse privado e,
mesmo, opinião e representação subjetiva. Estes imensos acúmulos de
vontades, interesses e atividades constituem os instrumentos e meios
para que o Espírito do Mundo atinja o seu objetivo, trazendo-o à
consciência e percebendo o seu significado. Este objetivo não é outro
senão a descoberta de si mesmo – a volta a si – e o contemplar-se na
realidade concreta. Podemos nos perguntar se estas manifestações de
vitalidade de parte dos indivíduos e dos povos, em que eles procuram e
satisfazem seus objetivos, não serão, ao mesmo tempo, os meios e os
instrumentos de um objetivo mais amplo e mais elevado sobre que nada
sabem, mas percebem de maneira inconsciente. Este objetivo tem sido
questionado e negado, desacreditado e denunciado de todas as maneiras
possíveis, tachado de sonho e de "filosofia". Quanto a isso, desde o
início apresentei o meu ponto de vista, afirmando nossa hipótese – que
mais tarde virá como resultado da nossa investigação: a Razão governa
o mundo e, conseqüentemente, governou a sua história. Tudo o mais
está subordinado, é subserviente a esta Razão universal e material e são
os meios para a sua realização. Além disso, a Razão tem existência
histórica imanente e atinge a sua perfeição nessa existência. A união do
universal ideal (que existe em si e por si) com o particular ou subjetivo
e o fato de que esta união apenas constitui a verdade são matéria da
filosofia especulativa que, em sua forma geral, é tratada na lógica. Em
seu desenvolvimento histórico [o lado subjetivo, a consciência, ainda
incapaz de saber o que é] , o objetivo final abstrato da história, a idéia
de Espírito ainda está acontecendo e está incompleta. A idéia de
Espírito ainda não se tornou seu objeto distinto de desejo e interesse.
Assim, o desejo ainda não tem consciência de seu objetivo, mas já existe
nos objetivos particulares e se compreende através deles. O problema
relativo à união do geral com o subjetivo pode também ser levantado
sob a forma da união da liberdade com a necessidade. Consideramos
uma necessidade o desenvolvimento imanente do Espírito, que existe
em si e para si, ao passo que atribuímos à liberdade os interesses
contidos nas vontades conscientes dos homens. Já que, como foi dito, o
72
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
73
aspecto especulativo, ou seja, conceitual desta ligação pertence à
lógica, este não seria o lugar para analisá-lo. Entretanto, os principais
pontos fundamentais podem ser apenas mencionados.
Na filosofia mostramos que a Idéia continua até sua antítese infinita.
... [A Idéia tem dentro de si a determinação de sua auto-consciência de
atividade. Por conseguinte, ela é a vida eterna de Deus, como era, por
assim dizer, antes da criação do mundo, a conexão lógica (de todas as
coisas). Ela ainda carece, a esta altura, da forma de ser que é a
realidade. Ainda é o universal, o imanente, o representado. A segunda
fase começa quando a Idéia satisfaz o contraste que originalmente só
está nela de maneira ideal e postula a diferença entre si em seu modo
universal livre, em que ela permanece dentro de si e em si como reflexão
puramente abstrata em si. Passando assim por cima para um lado (para
tornar-se objeto de reflexão), a Idéia estabelece o outro lado como
realidade formal (Fürsichsein), como liberdade formal, como unidade
abstrata da consciência própria, como reflexão infinita em si e como
negatividade infinita (antítese). 4 Assinz ele se torna o Ego que, como um
átomo (indivisível), opõe-se a todo o conteúdo e, dessa maneira, é a
antítese mais completa — a antítese, nomeadamente, de toda a plenitude
da Idéia. A Idéia absoluta é assim, por um lado, a plenitude material
do conteúdo e, por outro lado, a vontade livre abstrata. Deus e o
universo apartaram-se e se colocaram como opostos entre si. A consciência,
o Ego, tem um ser tal, que o outro (tudo o mais) está para ela
(é seu objeto). Ao desenvolver esta cadeia de pensamento, chega-se à
criação do mundo, dos espíritos livres e assim por diante. A antítese
absoluta, o átomo (i.é, o Ego), que ao mesmo tempo é uma diversidade
(de conteúdos da consciência), é a própria finidade. Ela é em si (na
realidade) apenas a exclusão de sua antítese (a Idéia absoluta). É seu
limite e sua barreira. Assim, ela é o Absoluto em si tornado finito. A
reflexão em si, a consciência própria individual, é a antítese da Idéia
absoluta e, por isso, a Idéia em finidade absoluta. Esta finidade, o
apogeu da liberdade, este conhecimento formal —quando relacionados
com a glória de Deus ou com a Idéia absoluta que reconhece o que deve
ser — é o solo em que o elemento espiritual do conhecimento como tal
está caindo, ele assim constitui o aspecto absoluto de sua realidade,
4. Observe este desenvolvimento da Idéia em cinco partes. Ele implica o que vem a
seguir. (Nota de Hartman.)
embora permaneça apenas formal.]
Compreender a perfeita união dessa oposição é a profunda tarefa da
metafísica. [O Divino, e por isso a religião, existe para o Ego e assim,
também o mundo em geral, ou seja, a totalidade universal da existência
finita existe para o Ego. O Ego nessa relação é em si a sua própria
finidade e se compreende como finito. Portanto, ele é o ponto de vista
de objetivos finitos, de simples aparência. (Ao mesmo tempo é particularidade
da consciência.) A consciência em si, liberdade considerada
de maneira abstrata, é o aspecto formal da atividade da Idéia absoluta.
Essa autoconsciência de si, em primeiro lugar, toma decisões em geral
e, em segundo lugar, toma decisões em todos os pormenores. Essa
subjetividade que conhece a si mesmo projeta-se em toda a objetividade.
Isto constitui a certeza do Ego quanto à sua existência. Uma
vez que essa subjetividade não tem outro conteúdo, ela será chamada
de desejo racional — assim como a piedade não é senão o desejo pela
salvação do sujeito. O Ego portanto decide-se, sobretudo, não enquanto
consciente, mas enquanto finito em sua relação imediata. Essa
é a esfera de sua fenonzenalidade. Ele toma as suas decisões em sua
particularidade. Nesse ponto encontramos as paixões, onde a
individualidade percebe a sua particularidade. Se consegue assim
perceber sua finidade, ele se duplica (sua finidade potencial torna-se
finidade real). Através dessa reconciliação do átomo com sua diversidade,
os indivíduos são o que chamamos felizes, pois é feliz quem está
em harmonia consigo mesmo. Pode-se contemplar a história do ponto
de vista da felicidade.] Mas, na verdade, a história não é o terreno da
felicidade. Nela os períodos de felicidade são páginas em branco. [É
verdade, existe satisfação na história do mundo. Mas não a espécie que
é chamada de felicidade, pois é a satisfação de objetivos que estão
acima dos interesses particulares. Os objetivos aplicáveis à história do
mundo devem ser compreendidos na vontade abstrata e com energia. Os
indivíduos históricos do mundo que foram atrás desses objetivos
satisfizeram-se, é verdade, mas eles não desejaram ser felizes.'
Este elemento de] ação abstrata deve ser visto como o elo, o meio
termo, entre a Idéia universal que está nos recessos interiores do Espírito
5. Eles desejavam ser grandes. A grandeza é a satisfação em grandes situações, a
felicidade é a satisfação em pequenas situações. Vera introdução, p. 28. (Nota de Ha rtma n.)
74
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
75
e o mundo externo. [É o que leva a Idéia de sua imanência para o seu
estado exterior. A universalidade, ao ser externalizada, faz-se particular,
ao mesmo tempo. O imanente por si estaria morto, seria abstrato.
Através da ação ele se torna existente. Ao contrário, a atividade eleva
a objetividade vazia (da natureza) a ser o aparecimento da essência que
está em e para si mesmo.]
b. O indivíduo como sujeito da história
[Na história do inundo lidamos com a Idéia enquanto ela se manifesta
no elemento da vontade humana, da liberdade humana. ... Vistos
de maneira objetiva, a Idéia e o indivíduo particular encontram-se na
grande oposição da Necessidade e da Liberdade – a luta do homem
contra o destino. Tomamos a necessidade não como necessidade
exterior do destino, mas da Idéia divina. A questão é, então: como esta
Idéia elevada se ligará com a liberdade do ser humano? A vontade do
indivíduo é livre quando ele pode postular de maneira absoluta e
abstrata em si e para si aquilo que deseja. Como então pode o universal,
o racional em geral, ser determinante na história? Essa contradição
não pode ser esclarecida detalhadamente aqui. Mas pensem no seguinte:
A chama consome o ar, ela é alimentada pela madeira. O ar é a
condição única para o crescimento das árvores. No esforço da madeira
para consumir o ar pelo fogo, a madeira luta contra si mesma e contra
a sua própria fonte. Mesmo assim, o oxigênio continua no ar e as
árvores não deixam de crescer verdejantes. Quando alguém inicia a
construção de uma casa, sua decisão para fazer isso também é tomada
livremente, mas todos os elementos devem cooperar. A casa está sendo
construída para proteger o homem contra os elementos. A partir desse
momento, os elementos são aqui usados contra eles mesmos, mas a lei
geral da natureza não é perturbada dessa maneira.] A construção de
uma casa, no primeiro exemplo, é um objetivo e um plano subjetivos.
Por outro lado, temos como meios as diversas substâncias necessárias
ao trabalho: ferro, madeira, pedras. Os elementos são usados no preparo
deste material – o fogo, para fundir o ferro, o vento para soprar o fogo,
a água para movimentar as rodas que cortam a madeira e assim por
diante. O resultado é que o vento, que ajudou a construir a casa, é
impedido de entrar pela própria casa; também o são a violência das
chuvas e inundações e as forças destruidoras do fogo, se a casa for à
prova de fogo. As pedras e vigas obedecem à lei da gravidade e fazem
pressão para baixo, para que as paredes altas se mantenham de pé. E
assim os elementos são utilizados segundo a sua natureza e cooperam
para com um produto pelo qual eles são restringidos. De modo semelhante,
as paixões dos homens se satisfazem; elas se desenvolvem e desenvolvem
os seus objetivos segundo as suas tendências naturais, produzindo
o edifício da sociedade humana. [Portanto, as paixões nem
sempre se opõem à moralidade, mas realizam o universal. É verdade, no
que diz respeito à sua própria moralidade, que elas se empenham em
realizar os seus interesses. Por essa razão elas parecem más e egoístas.
Mas a ação sempre é individual, sou sempre eu quem age. É ao meu
objetivo que desejo satisfazer. Este objetivo pode ser um bom objetivo,
um objetivo universal – por outro lado, o interesse poderá ser particular,
privado. Isto não significa que esteja necessariamente oposto ao
bem universal. Ao contrário, o universal deve ser realizado através do
particular.]
Esta ligação dos acontecimentos implica que as ações humanas na
história produzem resultados adicionais, além de seu objetivo e consecução
imediatos, além de seu conhecimento e desejo imediatos. Elas
satisfazem a seus próprios interesses, mas alguma coisa mais é realizada
nisso, algo latente na ação, ainda que não presente em sua consciência
e não incluído em seus planos. Há um exemplo análogo na história do
homem que, talvez com razão sedento de vingança, põe fogo na casa do
outro para reparar uma injustiça. O feito estabelece imediatamente uma
cadeia de circunstâncias não relacionadas diretamente com a casa em si.
O fato em si consiste simplesmente em apresentar uma chamazinha a
uma pequena porção de uma viga. Acontecimentos não envolvidos
neste ato simples ocorrerão por si mesmos. A parte da viga a que foi
posto o fogo está ligada a suas partes mais distantes, a viga está ligada
ao madeirame da casa, esta com outras casas e segue-se uma vasta
conflagração, que destrói todos os bens móveis de muitas outras pessoas
além dos daquela primeira vítima, podendo até custar as suas vidas. Isso
não recai no feito em si, nem no plano do homem que o cometeu. A ação
tem um alcance ainda mais generalizado. No plano de quem a praticou,
tratava-se apenas de vingança executada contra um indivíduo, através
da destruição de sua propriedade mas, além disso, é um crime e isto
também envolve a punição. Tudo isso talvez não esteja presente na
mente de quem o perpetrou, menos ainda em sua intenção; mas o feito
em si, os princípios gerais que ele coloca em jogo, seu conteúdo
76 A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
77
substancial implicam isso. Com este exemplo eu desejo apenas convencê-
los a levar em consideração o fato de que em um ato simples poderá
haver implícito algo mais além do que aquilo que existe na intenção e
na consciência do agente. O exemplo que temos diante de nós envolve,
entretanto, ainda a consideração de que a essência do ato – e, conseqüentemente,
o ato em si – recai sobre seu perpretador; influi nele e
o destrói.
Essa união de dois extremos – personificação de uma idéia geral na
realidade imediata e a elevação de uma particularidade à verdade
universal – ocorre sob a condição da diversidade e da indiferença de
cada um dos dois extremos para com o outro. Os agentes humanos têm
diante de si objetivos limitados, interesses especiais. Observe-se que
eles também são seres pensantes inteligentes. Seus objetivos estão entrelaçados
a reflexões gerais e essenciais da lei, do bem, do dever etc.
O simples desejo, a vontade em sua forma bruta e primitiva, cai fora do
cenário e da esfera da história do mundo. Estas reflexões gerais, que ao
mesmo tempo constituem as normas para a orientação de objetivos e
ações, têm um conteúdo definido. Abstrações vazias, como "é para o
seu bem", não têm lugar na realidade viva. Se os homens devem agir,
eles não devem apenas tencionar o bem, mas devem saber se este ou
aquele determinado procedimento é bom. Que uma linha de ação seja
ou não boa, certa ou errada, é algo que será determinado, nas circunstâncias
comuns da vida privada, pelas leis e costumes de um Estado.
Não é muito difícil conhecê-las. [É parte da liberdade no Estado ... que
nenhuma distribuição em castas determine a que negócio o indivíduo
deva dedicar-se. A moralidade do indivíduo consiste em que ele cumpra
os deveres de sua posição social. É fácil saber quais são esses deveres:
eles são determinados por sua posição. O conteúdo essencial de uni
relacionamento desse tipo, sua fundamentação lógica, é conhecido. É
precisamente o que chamamos dever. Investigar o conteúdo de um
dever é uma especulação desnecessária; na tendência a encarar-se a
moral como problema difícil, sentimos antes o desejo de nos livrarmos
do dever.] Cada indivíduo tem a sua posição, ele em geral sabe o que é
um procedimento justo e honrado. Afirmar nas relações privadas
com uns que é difícil escolher o certo e o bom, encará-lo como um marco
de moralidade característica da moral exaltada, levantando escrúpulos
por esse motivo, é uma indicação de vontade perversa e obstinada.
Indica uma vontade que procura fugir dos deveres óbvios palpáveis ou,
no mínimo, uma vontade mesquinha que dá muito pouco trabalho à sua
mente. A mente em reflexão preguiçosa ocupa-se então consigo mesma
e se entrega a uma presunção moral.
[A essência de uma relação moral está na natureza substancial que
o dever indica. Assim, a natureza da relação entre os filhos e os pais está
apenas no dever de comportar-se de acordo ou, para mencionar-se um
relacionamento legal – se devo dinheiro a alguém, tenho apenas de agir
segundo a lei e a natureza desse relacionamento e devolver o dinheiro.
Não há nada problemático nisso tudo. A base do dever é a vida civil: os
indivíduos têm seus compromissos de negócios e, com isso, seu compromisso
com o dever. A moral consiste em agir de acordo. ...
Cada indivíduo também é o filho de um povo em uma fase de seu
desenvolvimento. A pessoa não pode passar por cima do espírito de seu
povo, assim como não pode passar por cima da terra. A terra é o centro
de gravidade, só se pode imaginar que um corpo que deixe este centro
vá explodir no ar. Assim acontece com o indivíduo. Somente através de
seu esforço ele poderá estar enz harmonia com a sua substância, deve
trazer a vontade exigida por seu povo para a sua própria consciência,
para articulação. O indivíduo não cria o seu conteúdo, ele é o que é, expressando
tanto o conteúdo universal quanto o seu próprio conteúdo.
Todos devem ativar esse conteúdo universal que há em si. Através
dessa atividade se mantém o conjunto da vida ética. Há um outro
elemento ativo na história que ocasiona exatamente essa dificuldade.
Na discussão da dialética da Idéia já vimos onde se origina esse
conteúdo universal. Ele não pode originar-se dentro da comunidade
ética. Ali podem ocorrer eventos que violam sua universalidade resoluta
como o vício, a fraude e similares, que são reprimidos. Um conjunto
moral desse tipo é limitado. Acima dele deve haver uma universalidade
mais elevada, que o torna desunido em si. A transição de um padrão
espiritual para o próximo é exatamente isso, o fato de que o conjunto
moral anterior, que em si é uma proposição universal sendo pensada
(em termos de proposição universal mais elevada), é abolido como UM
particular.' A proposição universal mais recente, por assim dizer, o
gênero mais elevado que vem depois da espécie precedente existe em
potencial, mas ainda não está realmente presente na anterior. Isso faz
com que toda a realidade existente esteja instável e desunida.
6. Pois é elevado ao universal. (Nota de Ilartman.)
78 A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
79
Dois fatores são importantes no curso da história. Um é a preservação
de um povo, um Estado, das esferas ordenadas da vida. Isso é
atividade dos indivíduos que participam do esforço comum, ajudando
em suas manifestações particulares. É a preservação da vida ética. Não
obstante, o outro fator importante é a queda de um Estado. A existência
de um espírito nacional é partida quando ela se esgotou e exauriu. A
história do inundo, o Espírito do Mundo, continua em seu rumo. Não
podemos tratar aqui da posição de indivíduos dentro do conjunto moral
e seu dever e comportamento moral. Estamos preocupados com o
desenvolvimento do Espírito, com o seu avanço e a sua ascensão a uni
conceito sempre mais elevado de si. Este desenvolvimento está ligado
a degradação, destruição e aniquilação do modo precedente da realidade
que o conceito de Espírito havia desenvolvido. Por um lado, isto
é o resultado do desenvolvimento interior da Idéia e, por outro, da
atividade dos indivíduos, que são os seus agentes e provocam a sua
realização.] É neste ponto que aparecem aquelas colisões graves entre
os deveres, leis e direitos existentes e reconhecidos e as possibilidades
adversas a esse sistema, que o violam e chegam a destruir as suas bases
e a sua existência. Seu teor pode, entretanto, parecer bom, vantajoso no
conjunto – sim e mesmo, indispensável e necessário. Estas contingências
tornam-se agora fatos históricos, envolvem uma proposição universal
de ordem diferente daquela de que depende a permanência de um povo
ou um Estado. A proposição universal é uma fase essencial no desenvolvimento
da Idéia criadora, da verdade que se empenha e corre em
direção a si. Os homens históricos, indivíduos históricos do inundo, são
aqueles [que apreendem uma proposiçãó universal elevada como essa,
fazem-na seu objetivo e realizam este objetivo em conformidade com a
lei mais elevada do espírito.]
César era um desses homens. Antes de atingir a sua posição de
superioridade, esteve em risco de perder seu lugar, em pé de igualdade
com os outros líderes de Roma. Quase sucumbiu para os que logo iriam
tornar-se inimigos seus. Esses inimigos, que ao mesmo tempo estavam
atrás dos seus interesses pessoais, tinham a seu lado a constituição
formal de Roma e a força de uma aparência legal. César lutou para
manter sua posição, sua honra e segurança. A vitória sobre seus
inimigos que mantinham o poder sobre todas as províncias romanas
tornou-se ao mesmo tempo a conquista de todo o império. Sem
modificar a constituição, César tornou-se assim o único governante do
Estado. Ao realizar seu objetivo originalmente negativo – a autocracia
sobre Roma – ele ao mesmo tempo cumpriu o necessário destino
histórico de Roma e do mundo. Dessa maneira ele foi motivado não
apenas por seu interesse privado, mas também agiu instintivamente
para a realização daquilo que a época exigia. O mesmo acontece com
todos os grandes indivíduos históricos – seus objetivos pessoais contêm
a vontade essencial do Espírito do Mundo. Eles devem ser chamados de
"heróis", na medida em que não tiraram seu objetivo e sua vocação do
rumo calmo e regular das coisas, sancionado pela ordem existente, mas
de uma fonte secreta cujo conteúdo ainda está oculto e ainda não veio
à luz. A fonte de suas ações é o espírito interior, ainda oculto por baixo
da superfície, mas já batendo contra o mundo exterior como em uma
casca para, afinal, irromper, deixando-a em pedaços, pois é um núcleo
diferente daquele que pertence à casca. Portanto, são homens que
parecem tirar os impulsos de suas vidas de si mesmos. Seus feitos
produziram uma condição de coisas e um complexo de relações
históricas que parecem ser o seu interesse c a sua obra.
Esses indivíduos não têm consciência da Idéia como tal, são homens
práticos e políticos. Ao mesmo tempo, são pensadores com a compreensão
do que é necessário e em que momento. Enxergam a própria verdade
de sua época e de seu mundo – eles vêem a próxima espécie que, por
assim dizer, já está formada no ventre do tempo. Eles conhecem esta
nova proposição universal, o próximo estágio necessário de seu mundo,
para dela fazer seu objetivo, colocando nela toda a sua energia. As
personalidades históricas do mundo, os heróis de seu tempo, devem
portanto ser reconhecidas como seus profetas – suas palavras e seus
feitos são o melhor da época.' Os grandes homens trabalharam para a
sua satisfação e não para a de outros. Quaisquer planos prudentes e
conselhos bem intencionados que possam ter obtido de outros teriam
sido limitados e inadequados para as circunstâncias. Eram eles que
sabiam melhor e era deles que os outros aprendiam e com quem
concordavam ou, pelo menos, a quem obedeciam. O Espírito, ao dar
este novo passo histórico, é a alma mais profunda de todos os indivíduos
– mas em um estado inconsciente, pelo qual os grandes homens desper-
7. Isto parece implicar que, na medida em que eles só produzem a destruição do velho,
a antítese para a tese, sem a síntese, suas palavras e ações são o pior de sua época. (Nota de
Hartman.)
80
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
81
tam para a consciência. Por essa razão os homens seguem estas almas
que lideram, [eles afluem em multidões atrás de suas bandeiras].
Sentem a força irresistível do seu próprio espírito incorporado nelas.
Vamos agora dar uma olhada no destino desses indivíduos históricos.
[Eles foram afortunados por serem os agentes de um objetivo que
constitui um passo no avanço do Espírito universal. Entretanto, como
indivíduos claramente distintos de seu objetivo essencial, não eram o
que chamamos normalmente felizes, nem pretendiam sê-lo. 8 Eles desejavam
realizar o seu objetivo e realizavam-no através de seu trabalho
árduo. Conseguiam encontrar a satisfação ao ocasionar a realização
desse objetivo, o objetivo universal. Com objetivo tão grandioso,
tinham a coragem para desafiar todas as opiniões dos homens.] Eles
não obtinham assim uma satisfação tranqüila. Toda a sua vida era trabalho
e problemas, todo o seu ser estava na sua paixão. Uma vez
atingido o objetivo, eles saem de suas cascas como carcaças vazias.
Morrem cedo, como Alexandre, são assassinados como César, levados
para Santa Helena, como Napoleão. Este fato terrível de não serem
felizes os homens históricos – pois apenas a vida privada em suas
diversas circunstâncias exteriores pode ser "feliz" – poderá servir de
consolo aos que dele necessitem, invejosos incapazes de tolerar a
grandeza e a eminência. Esforçam-se em criticar os grandes e diminuir
a grandeza. Nos tempos atuais demonstrou-se ad nauseai,: que os
príncipes em geral são infelizes em seus tronos. Essa é a razão por que
não se inveja a posição deles e se acha tolerável que sejam eles e não nós
quem está sentado no trono. Mas o homem livre não é invejoso, ele
reconhece com prazer o que é grande 'e está em posição superior,
alegrando-se com a sua existência. ... [A esses grandes homens liga-se
toda uma cadeia de inveja, que tenta demonstrar que a paixão deles é
um vício. Pode-se, na verdade, aplicar a palavra "paixão" ao fenômeno
dos grandes homens e julgá-los moralmente dizendo que a paixão foi
seu impulso. Eles eram realmente homens de paixão: tinham a paixão
de sua convicção e colocaram nela todo seu caráter, todo seu talento e
toda sua energia. Aqui o necessário em si e para si surge na forma de
paixão. Esses grandes homens parecem apenas seguir sua paixão e sua
vontade arbitrária. Mas eles buscam a proposição universal, só este é
seu patos. Precisamente a paixão foi a energia de seus egos, sem ela não
8. Ver acima, na p. 73, nota 5. (Nota de Hartman.)
teriam sido capazes de realizar nada.
Assim, o objetivo da paixão e o da Idéia são o mesmo. A paixão é a
unidade absoluta do caráter individual e da proposição universal. Ela
é uma coisa quase animalesca – como o espírito em sua particularidade
subjetiva aqui se torna identificado com a Idéia...
Realizando seu grande objetivo em conformidade com a necessidade
do Espírito universal, estes homens históricos também se satisfazem.
As duas coisas são inseparáveis: a causa e seu herói. Ambos
devem ser satisfeitos. ... É pedantismo psicológico fazer uma separação
e, dando o nome de vício à paixão, suspeitar da moral desses homens.
Ao dizer que eles agiam apenas a partir de uma ânsia mórbida mostramse
as conseqüências de suas ações, ao mesmo tempo em que seus
objetivos e desgastam-se as próprias ações segundo os meios.] Alexandre
da Macedônia em parte conquistou a Grécia e depois a Ásia; dizse,
portanto, que ele ansiava pela conquista e, como prova, mostra-se
que ele fez coisas que resultaram em fama. Que mestre-escola deixou
de demonstrar que Alexandre, o Grande, e Júlio César não fossem
movidos por essas paixões e, conseqüentemente, não fossem imorais?
Daí se conclui imediatamente que ele, o mestre-escola, é um homem
melhor que eles, porque não tem essas paixões, tanto é assim que ele não
conquistou a Ásia, nem venceu Dano e Porus, mas goza da vida e
permite que outros também gozem dela. Esses psicólogos orgulham-se
especialmente de contemplar essas excentricidades que pertencem à
individualidade das grandes personalidades históricas. O homem deve
comer e beber, tem relacionamentos com amigos e conhecidos, tem
emoções e ataques temperamentais. "Nenhum homem é um herói para
o seu camareiro," diz um provérbio muito conhecido – e eu acrescento
(e Goethe o repetiu anos depois): "... não porque o primeiro não seja um
herói, mas porque o segundo é um camareiro."9 Ele tira as botas do
herói, ajuda-o na hora de ir para o leito à noite, sabe se ele prefere
champanhe e outras coisas no gênero. Personalidades históricas se
deram mal na literatura histórica quando atendidas por esse tipo de
camareiros cheios de psicologia. Estes os reduzem ao seu nível ou antes,
a alguns graus abaixo da sua moral, capazes, como se julgam, de
9. A observação de Hegel apareceu em Fenonienologia da mente, 1807. Goethe
utilizou-a em Afinidades eletivas, 1809 (Parte II, cap. 5, "O diário de °tília"). (Nota de
Ha rtma n.)
82 A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
83
compreender profundamente as almas. O Tersites que insulta o rei, de
Homero, é uma personalidade que fica para todas as épocas. Ele não
atinge – ou seja, não bate violentamente com uma clava – todas as eras,
como o homérico, é verdade. Mas a sua inveja, o seu egoísmo, é
tormento que ele tem de carregar em sua carne e o verme eterno que o
corrói é o pensamento torturante de que suas excelentes intenções e
críticas não têm resultado algum no mundo. Pode-se tirar certa satisfação
do destino de Tersites.
Uma personalidade histórica do mundo não é tão desprovida de
imaginação que não possa adaptar sua ambição às circunstâncias, mas
também não é muito ponderada. Está dedicada a um objetivo, aconteça
o que acontecer. Por isso homens assim poderão chegar a tratar outros
interesses grandes, ou até sagrados, sem muita reflexão – comportamento
esse que realmente os sujeita à repreensão moral. Unia personalidade
tão poderosa tem de pisar em muita flor inocente, esmagando
muitas coisas em seu caminho.
c. O indivíduo como objeto da história
O interesse especial da paixão é, portanto, inseparável da realização
do universal, pois o universal resulta do particular e definido e de sua
negação. [O particular tem seu papel a desempenhar na história do
mundo, ele é finito e, como tal, deve extinguir-se.] É o particular que se
esgota na luta, onde parte dele é destruída. [O universal resulta
precisamente desta luta, da destruição do particular.] Não é a Idéia
geral que se envolve em oposição e luta expondo-se ao perigo, ela
permanece no segundo plano, intocada e incólume. Isto pode ser
chamado astúcia da razão – porque deixa as paixões trabalharem por
si, enquanto aquilo através do qual ela se desenvolve paga o preço e
sofre a perda. O fenomenal é que em parte é negativo e em parte,
positivo. Em geral o particular é muito insignificante em relação ao
universal, os indivíduos são sacrificados e abandonados. A Idéia paga
o tributo da existência e da transitoriedade, não de si mesmo, mas das
paixões dos indivíduos.
Podemos achar tolerável a idéia de que os indivíduos, seus objetivos
e suas satisfações sejam assim sacrificados e sua felicidade entregue ao
domínio [das forças naturais e por isso,] do acaso, a que ela pertence –
e que em geral os indivíduos sejam vistos sob a categoria de seus
recursos. Este é um aspecto da individualidade humana que devemos
recusar a tomar exclusivamente a esta luz, mesmo em relação ao mais
elevado, um elemento que absolutamente não está subordinado, mas
que existe nos indivíduos como essencialmente eterno e divino. Estou
falando da moral,'° da ética, da religião. Ao discutir o papel dos
indivíduos na realização do objetivo racional, já dissemos que o
elemento subjetivo neles, seus interesses, seus desejos e seus impulsos,
seus pontos de vista e suas opiniões tinham um direito infinito de serem
satisfeitos, embora encarássemos a estes como sendo apenas o aspecto
formal de sua existência. Ao falar de recursos imaginamos, antes de
mais nada, algo exterior ao objetivo, que não tem parte nele. Na
verdade, até mesmo as coisas simplesmente naturais, os mais comuns
objetos sem vida usados como recursos, devem adaptar-se de alguma
forma a seu objetivo, devem possuir algo em comum com ele. Essa
relação exterior e vazia de simples recursos é , a menos importante
relação que os seres humanos têm para com o objetivo racional, fazem
do próprio ato de sua realização a ocasião de satisfazer seus desejos
pessoais, cujo objetivo é diferente daquele outro. Além do mais,
participam do próprio objetivo racional e, por esta mesma razão, são
fins em si – não apenas formalmente, como em geral é o mundo dos
outros seres vivos, cuja vida individual está essencialmente subordinada
à do homem e é devidamente utilizada como um instrumento. Os
homens, ao contrário, são fins em si em relação ao conteúdo do objetivo.
Isto define os elementos que exigimos estar isentos da categoria de
recursos: a moral, a ética, a religião."
O homem é um fim em si, apenas por virtude do divino que há nele
– aquilo que de início designamos como Razão ou, até onde vão sua
atividade e poder de autodeterminação, como Liberdade. E dizemos –
sem entrar agora em maiores discussões – que a religiosidade, a moral
etc. têm nela sua base e sua origem e, assim, estão essencialmente
isentas da necessidade e do acaso exteriores. [Não podemos esquecer
que falamos aqui de moral, religiosidade etc. apenas até onde elas
10. Note-se a diferença entre a moral intrínseca (Mordiriii), o que se tem em mira aqui,
e a moral extrínseca da posição social (Si/ti/chã-cif), mencionada anteriormente. (Nota de
Ha rtman.)
11. Que se relacionam à natureza essencial do homem como um fim em si. (Nota de
Ha rtman.)
84
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
85
existem nos indivíduos, sujeitas por isso, à liberdade individual. Neste
sentido, ou seja,] até onde vai sua liberdade, os indivíduos são responsáveis
pela depravação e pelo enfraquecimento da moral e da
religião. Esse é o selo do destino absoluto e sublime do homem: ele sabe
o que é o bem e o que é o mal e sabe que seu destino é a sua própria
capacidade de escolher o bem ou o mal. Resumindo, ele pode ser
culpado – não apenas do mal, mas do bem, e não apenas a respeito desta
ou daquela determinada questão, tudo que acontece nele e em torno dele
(Sittlichkeit), mas também o bem e o mal ligados à sua liberdade
individual (Moralitãt). Só o animal é verdadeiramente inocente. Mas
seria necessária uma vasta explicação – tão vasta quanto a própria
liberdade – para evitar ou refutar todos os mal-entendidos que em geral
surgem da afirmação de que a palavra "inocência" significa ignorância
do mal.
Ao contemplarmos o destino que na história têm a virtude, a moral
ou mesmo a piedade, não devemos cair na litania de lamentações de que
os bons e os piedosos em geral ou em sua maioria se dão mal nesse
mundo, enquanto os maus e os perversos prosperam. Por prosperidade
se pode entender muitas coisas – a riqueza, a honra aparente e afins, mas
ao falar-se de objetivo em si ou por si, o que chamamos de prosperidade
ou infelicidade deste ou daquele indivíduo isolado não pode ser visto
como elemento essencial na ordem racional do universo. Com mais
razão do que a simples felicidade ou as circunstâncias afortunadas dos
indivíduos, requer-se do objetivo do mundo que os objetivos bons,
morais e corretos encontrem aí sua satisfação e segurança. O que faz os
homens insatisfeitos moralmente – uma insatisfação de que eles se
orgulham – é que eles não acham o presente adequado à realização de
objetivos que em sua opinião são corretos e bons, especialmente os
ideais das instituições políticas de nosso tempo. Comparam as coisas
como elas são, com seu ideal de como deveriam ser. Neste caso, não é
o interesse privado ou a paixão que deseja a satisfação, mas a razão, a
justiça, a liberdade. Em seu nome as pessoas pedem o que lhes é devido
e geralmente não estão apenas insatisfeitas, mas abertamente revoltadas
contra a condição do mundo. Para julgar esses pontos de vista e esses
sentimentos, ter-se-ia de examinar as exigências persistentes e as opiniões
dogmáticas em questão. Em nenhuma época tanto como na nossa
esse tipo de princípios e idéias gerais se apresentou com tamanha
pretensão. Em outros momentos a história parece apresentar-se como
luta de paixões. Neste nosso tempo, embora as paixões não faltem, a
história mostra parcial e predominantemente uma luta de idéias justificáveis
e, em parte, uma luta de paixões e interesses subjetivos sob a
máscara de pretensões mais elevadas como essas. Tais pretensões,
encaradas como legítimas em nome do suposto destino da Razão, têm
assim validade como fins absolutos – da mesma maneira que a religião,
a moral, a ética.
Como foi dito antes, hoje nada é mais comum do que a queixa de que
os ideais que a imaginação estabelece não são realizados, de que estes
sonhos gloriosos são destruídos pela fria realidade. Esses ideais, que na
viagem da vida naufragam nas pedras da dura realidade, podem ser a
princípio apenas subjetivos e pertencem à idiossincrasia do indivíduo
que se imagina sumamente sábio. Ideais do gênero não pertencem a esta
categoria. Aquilo que um indivíduo fantasia para si em seu isolamento
não pode ser a norma para a realidade universal. A lei universal não foi
projetada para os indivíduos como tais, que podem realmente se
encontrar como grandes perdedores. Mas pela expressão "ideal"
também se pode entender o ideal da Razão, do bom e do verdadeiro. Os
poetas, como Schiller, pintaram esses ideais de maneira comovente,
com muita emoção e com a convicção profundamente melancólica de
que eles não poderiam jamais ser realizados. Ao afirmar, pelo contrário,
que a Razão universal se realiza mesmo, nada temos a ver com o detalhe
empírico. Isto pode ser melhor ou talvez pior, pois aqui a oportunidade
e a particularidade receberam autorização para exercer sua imensa
força. Portanto, pode-se encontrar muito equívoco em detalhes extraordinários.
Essa descoberta subjetiva do erro é fácil, especialmente a
partir do momento em que mantém em vista apenas o detalhe e sua
deficiência, sem compreender a Razão universal que há nele. Ao
declarar as boas intenções para com o bem-estar do conjunto e mostrar
uma aparência de bom coração, ela pode pavonear-se dando ares de
grande importância. É mais fácil descobrir a deficiência nos indivíduos,
nos Estados e na Providência, do que ver seu significado real. Pois na
descoberta negativa do erro se permanece nobremente e com uma
atitude de orgulho acima da questão, sem penetrar nela e sem compreender
os seus aspectos positivos. Em geral a idade torna as pessoas
mais tolerantes, a juventude está sempre insatisfeita. Os mais velhos
86
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
87
têm uma capacidade de avaliação mais amadurecida, que aceita até
mesmo o que é mau, não por simples indiferença, mas porque lhes foi
ensinado com maior profundidade pela grave experiência da vida. Ela
assim leva à essência, ao valor intrínseco da questão.
A compreensão a que – em oposição a estes ideais – nos deveria
levar a filosofia é a de que o mundo real não é como deveria ser, de que
o verdadeiramente bom, a Razão divina universal é a força capaz de se
realizar. Este bem, esta Razão, em sua apresentação mais concreta, é
Deus. Deus governa o mundo. O trabalho real de Seu governo, a
execução de Seu plano é a história do mundo. A filosofia se esforça por
compreender este plano, pois só aquilo que foi executado em conformidade
com ele tem realidade, o que não está em acordo, não passa de
existência sem mérito. Diante da luz pura dessa Idéia divina, que não é
um simples ideal, a ilusão desaparece como se o mundo fosse um
processo louco e vazio. A filosofia deseja identificar o conteúdo,
realidade da Idéia divina, e justificar a realidade menosprezada, pois a
Razão é a compreensão do trabalho divino.
O que dizer da perversão, da corrupção e da ruína dos objetivos
religiosos, éticos e morais e das condições sociais em geral? Deve-se
afirmar que, em sua essência, estes objetivos são infinitos e eternos. As
formas que eles assumem podem ter um certo limite e conseqüentemente
pertencem ao reino da simples natureza, estando sujeitas à
influência do acaso. Elas são portanto transitórias e estão expostas à
atrofia e à corrupção. A religião e a moral, como essências universais
em si, têm a característica de estar presentes na alma individual em
conformidade a seus conceitos e portanto verdadeiramente, embora
possam não estar representadas ali elaboradas por inteiro e aplicadas a
condições completamente desenvolvidas. A religiosidade, moral de
uma vida limitada – de um pastor, de um camponês – tem infinito valor
em sua concentrada limitação interior. Ela tem o mesmo valor que a
religiosidade e moral de um intelecto instruído e de uma existência com
um amplo círculo de relacionamentos e rica em atividades. Este
enfoque interior, esta região simples das reivindicações da liberdade
subjetiva –o lugar da vontade, da resolução e da ação, conteúdo abstrato
da consciência, onde estão encerrados a responsabilidade e o merecimento
do indivíduo – permanece intocada. Está bastante desligada do
estrépito da história do mundo, não apenas de suas mudanças externas
e temporais, mas também de todas as alterações legadas pela necessidade
absoluta do próprio conceito de liberdade. 12 Entretanto, deve-se
notar em geral que, para qualquer coisa que no mundo se aclame como
nobre e gloriosa, haverá algo ainda mais elevado. A reivindicação do
Espírito do Mundo está acima de todas as reivindicações especiais.
Tudo isso, a respeito dos meios que o Espírito do Mundo usa para
realizar o seu conceito. Dito de modo simples e abstrato, é a atividade
dos sujeitos em quem a Razão está presente como essência substancial
em si, mas ainda obscura e oculta para eles. A questão se torna mais
complicada e difícil quando vemos os indivíduos não apenas como
ativos mas, de maneira mais concreta, quando levamos em consideração
o conteúdo preciso de sua religião e moral – aspectos da
existência intimamente ligados à Razão, compartilhando suas reivindicações
absolutas. Aqui desaparece a relação de simples meio para fim.
Os pontos mais importantes desta aparente dificuldade com respeito ao
objetivo absoluto do Espírito foram aqui rapidamente examinados.
3. O ESTADO
a. O Estado como realização da Idéia
Assim, o terceiro ponto se refere ao fim a ser atingido por esses
meios, ou seja, à forma que ele atinge no domínio do real. Falamos de
meios; acontece que a execução de um objetivo limitado e subjetivo
também exige um elemento material, já presente, ou a ser obtido para
servir a essa realização. Com isso, surge a pergunta: qual é a matéria em
que será realizado o objetivo final da Razão? Antes de mais nada, ela é
o próprio agente subjetivo, os desejos humanos, a subjetividade em
geral. No conhecimento e na vontade do ser humano, como base
material, o racional passa a existir. Já examinamos a vontade subjetiva
com sua finalidade, que é a veracidade da existência real, até onde ela
é movida por uma grande paixão histórica mundial. Como vontade
subjetiva em paixões limitadas, ela é dependente, pode satisfazer seus
desejos particulares apenas dentro de sua dependência. Mas a vontade
subjetiva também tem uma vida material, uma realidade onde se
12. Mas observe-se que, na medida em que a liberdade é racional, a consciência
individual está de acordo com ela. (Ver A filosofia do direito, parágr. 129 ss.). (Nota de
Ilartman.)
88
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
89
movimenta pela região do ser essencial e em que tem a própria essência
como objetivo de sua existência. Este ser essencial é a união da vontade
subjetiva com a vontade racional, é o conjunto moral, o Estado. É aquela
forma de realidade em que o indivíduo tem e goza de sua liberdade, mas
na condição de conhecer, acreditar e desejar o universo. Não se deve
entender isso como se a vontade subjetiva do indivíduo obtivesse
satisfação e prazer através da vontade comum e esta fosse um meio para
isso – como se o indivíduo limitasse sua liberdade entre os outros
indivíduos, de maneira a que essa limitação comum, a repressão comum
a todos, pudesse garantir uma liberdade pequena para todos. (Isto seria
apenas uma liberdade negativa.) Em vez disso, afirmamos que a lei, a
moral, o Estado – e só eles – são a satisfação e a realidade positiva da
liberdade. Uma liberdade pequena e limitada é um simples capricho,
que é exercitado na esfera restrita dos desejos particulares e limitados.
A vontade subjetiva, paixão, é a força que realiza, que torna real. A
Idéia é a energia interior da ação, o Estado é a vida que existe
externamente, autenticamente moral. Ela é a união da vontade universal
e essencial com a vontade subjetiva e, como tal, ela é Moral. O
indivíduo que vive nessa união tem uma vida moral, ele possui um valor
que consiste apenas nesta existência real." A Antígona de Sófocles diz:
"As ordens divinas não são de ontem, nem de hoje; não, elas têm uma
existência infinita e ninguém poderia dizer de onde elas vieram ." 14 As
leis da ética não são acidentais, mas são a própria racionalidade. A
finalidade do Estado é fazer prevalecer o material e se fazer reconhecer
nos feitos reais dos homens e nas suas convicções. É de interesse
absoluto da Razão que este todo moral exista; é nisto que está a
justificação e o mérito de heróis que fundaram Estados – não importa
quão primitivos fossem.
[O que conta em um Estado é a ação realizada de acordo com uma
vontade comum e adotando os objetivos universais. Mesmo em um
13. As instituições sociais, originalmente extrínsecas ao indivíduo e sua moral intrínseca,
surgem para completar esta moral durante seu desenvolvimento. Sua totalidade,
o Estado, torna-se então moral intrínseca, tanto com respeito ao indivíduo, como conclusão
de sua liberdade intrínseca, quanto ao Espírito do Mundo, como concretização de sua
Liberdade universal. (Nota de Hartman.)
14. Isto parece uma referência infeliz, pois Antígona opõe as leis eternas dos deuses às
ordens temporais de um Estado– empenhando-se assim na oposição ao afirmado aqui por
Hegel. (Nota de Hartman.)
Estado primitivo existe a sujeição de uma vontade sob a outra, mas isto
não significa que o indivíduo não tenha uma vontade própria, e sim, que
a sua vontade particular não vale. Caprichos e ânsias não têm valor. A
particularidade da vontade é já haver sido repudiada em formações
políticas primitivas como essas. O que conta é a vontade coletiva. Sendo
suprimido dessa maneira, o indivíduo irá se afastar, voltando-se para
dentro de si mesmo. Esta é a condição necessária para a existência do
universo, a condição do conhecimento e do pensamento – pois é o
pensamento que o homem tem em comum com o divino." Assim ele
surge no Estado; apenas em cima deste solo, ou seja, no Estado, podem
existir a arte e a religião. Os objetos de nossas reflexões são os povos
que se organizaram racionalmente.) Na história do mundo, apenas estes
povos que formam Estados podem chamar a nossa atenção. [Não se
deve imaginar que esse tipo de organização poderia surgir em uma ilha
deserta ou no isolamento. Embora seja verdade que todos os homens se
tenham formado na solidão, eles só o fizeram através da assimilação
daquilo que o Estado já havia criado. O universal não deve ser apenas
algo que o indivíduo projeta, mas algo que já existe. Como tal, ele está
presente no Estado, é isto que vale nele. Aqui, a interioridade é ao
mesmo tempo realidade. É uma realidade com vários aspectos exteriores,
mas compreendida aqui na universalidade.
A Idéia universal se manifesta no Estado. A palavra "manifestação"
tem aqui um significado diferente do habitual. Em geral
fazemos a distinção entre poder (potencialidade) e manifestação, como
se a primeira fosse a essência e a última, não essencial, ou exterior. Até
agora não há nenhuma determinação real na própria categoria de
poder, ao passo que onde está o Espírito ou o conceito real a própria
manifestação é o elemento essencial. O critério do Espírito é sua ação,
a sua essência ativa. O homem é sua própria ação, a seqüência de suas
ações, aquilo em que ele mesmo está se fazendo. Assim, o Espírito é
essencialmente Energia e, em relação ao Espírito, não se pode deixar
de parte sua manifestação. A manifestação do Espírito é sua autodeterminação
real, este é o elemento de sua natureza concreta. O Espírito
que não se determina é uma abstração da inteligência. A manifestação
do Espírito é sua autodeterminação e é esta manifestação que temos de
investigar na forma de Estados e indivíduos.
15. Esta cláusula foi recuperada da primeira edição. (Nota de Hartman.)
90
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
91
O indivíduo espiritual, que é o povo, é o que chamamos de Estado,
quando está organizado em si como um todo orgânico. Esta é uma
designação ambígua, pois por "Estado" e "lei constitucional" geralmente
se quer falar do simples aspecto político, distinto de religião,
ciência e arte. Quando falamos da manifestação do espiritual, entendemos
a palavra "Estado" enz uni sentido mais abrangente, como a
palavra Reich (império, reino). Para nós, então, um povo ou uma
pessoa é basicamente um indivíduo espiritual. Não enfatizamos os aspectos
exteriores, mas nos concentramos no que é chamado de espírito
de um povo. Queremos dizer a consciência que ele tem de si, de sua
verdade, de sua essência, as forças espirituais que nele vivem e o
governam. O universo que se manifesta no Estado e que é conhecido
nele — a forma sob a qual tudo o que existe é agrupado — é o que constitui
a cultura de uma nação. O conteúdo definitivo que recebe esta forma
universal e está contido na realidade concreta do Estado é o espírito do
povõ. O Estado real é animado por este espírito em todas as suas
guerras, instituições, negócios particulares etc. Este conteúdo espiritual
é algo definido, firme, sólido, completamente isento de capricho,
das particularidades, das fantasias da individualidade, do acaso. O que
está sujeito a este último não é a natureza do povo — ela é como a poeira
que cai, pairando sobre uma cidade ou um campo, que essencialmente
não os transforma. O conteúdo espiritual constitui por conseguinte a
essência do indivíduo e também a do povo. É o laço sagrado que une os
homens e as almas. É uma só vida, um grande objetivo, um grande
desígnio e conteúdo, de que depende toda a felicidade individual e
todas as decisões pessoais. ... O Estado não existe para os cidadãos —
ao contrário, poder-se-ia dizer que o Estado é o fim e que eles são os
seus meios. Acontece que a relação meio-fim não funciona aqui. O
Estado não é o ideal com que se defrontam os cidadãos, mas estes são
partes daquele, como os membros de um corpo orgânico, em que
nenhum membro é o fim e nenhum é o meio.] O Estado é a realização da
Liberdade, do objetivo final absoluto, e existe por si mesmo. Todo o
valor que tem o homem, toda a sua realidade espiritual, ele só a tem
através do Estado. Sua realidade espiritual é a presença consciente para
ele de sua própria essência, a presença da Razão, de seu objetivo, a realidade
imediata presente em si e para si. Só assim ele tem plena
consciência, assim ele compartilha da moral, da vida legal e moral do
Estado, pois a Verdade é a união da vontade universal com a vontade
particular. O universal no Estado está em suas leis, suas disposições
racionais e universais. O Estado é a Idéia divina como ela existe sobre
a terra.
Portanto, o Estado se torna o objeto preciso da história do mundo; é
onde a Liberdade obtém a sua objetividade e se mantém no gozo desta
objetividade. A Lei é a objetividade do Espírito, é a vontade em sua
forma verdadeira. Só a vontade que obedece à lei é livre, pois obedece
a si e, estando em si, sendo independente, ela é livre. Quando o Estado,
nosso País, constitui uma comunidade de existência e quando a vontade
subjetiva do homem se sujeita às leis, a contradição entre a liberdade e
a necessidade desaparece. São necessários tanto o racional, como o
material. Somos livres quando o reconhecemos como lei e o seguimos
como sendo a matéria de nosso próprio ser. A vontade objetiva e a
vontade subjetiva estarão conciliadas então, formando um só conjunto
harmonioso. O etos do Estado não é de moral, gênero de ética ponderada
em que a convicção de cada um domina com supremacia. Esta última
é antes a característica do mundo moderno. A verdadeira moral antiga
está enraizada no princípio de que todos cumprem o seu dever. Um
cidadão ateniense fazia o que lhe era exigido, como se fosse do instinto.
Mas, se eu faço uma reflexão sobre o objetivo de minha atividade, devo
ter a consciência de que a minha vontade é exercitada. Entretanto, a
moral é o dever, a lei material, a segunda natureza, como tem sido
corretamente chamada — pois a primeira natureza do homem é sua existência
animal imediata.
b. A lei como realização da Liberdade
O desenvolvimento minucioso do Estado é o objeto da filosofia
jurídica. Deve-se observar, no entanto, que nas teorias atuais são
comuns diversos erros sobre o Estado, aceitos como verdades estabelecidas
e que sc tornaram preconceitos. Mencionarei apenas alguns
desses equívocos, especialmente os que dizem respeito ao tema da
história.
O primeiro erro que encontramos é a contradição direta de nosso
princípio de que o Estado seja a realização da liberdade: ou seja, a idéia
de que o homem é livre por natureza, mas que, na sociedade ou no
Estado, a que ele necessariamente pertence, deve limitar esta liberdade
natural. O fato de ser o homem livre "por natureza" está bastante
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO 93
92
A RAZÃO NA HISTÓRIA
correto, no sentido em que ele é livre em conformidade com o próprio
conceito de homem, ou seja, apenas em seu destino, como ele é, em si
mesmo – a "natureza" de uma coisa é realmente o equivalente ao seu
conceito de existência. Neste sentido pressupõe-se um estado de natureza
onde se acredita que o homem esteja na posse de seus direitos naturais
e no exercício sem limites, em pleno gozo, de sua liberdade. Essa
hipótese não é apresentada como um fato histórico; seria na verdade
difícil detectar qualquer condição desse tipo em qualquer lugar, no
presente ou no passado, caso se fizesse a sério uma tentativa. Podemos
encontrar exemplos de condições primitivas, mas elas estão marcadas
por paixões irracionais e atos de violência. Rudimentares como são, elas
ao mesmo tempo estão ligadas com as instituições sociais que, para
usar-se a expressão comum, restringem a liberdade. A hipótese do nobre
selvagem é uma daquelas imagens nebulosas que a teoria produz, uma
idéia que necessariamente deriva desta teoria, à qual ela atribui uma
existência real, sem uma justificação histórica suficiente.
Esse estado da Natureza na teoria é exatamente o que encontramos
na prática. A liberdade como ideal de natureza original não existe como
original e natural. Ela deve ser adquirida e conquistada e isso apenas é
possível através de um processo infinito da disciplina do conhecimento
e da força de vontade. Portanto, o estado natural é antes um estado de
injustiça, violência, de impulsos naturais bravios, de feitos emoções
bárbaros. É verdade que há um limite imposto pela sociedade e o
Estado, mas é o limite das emoções irracionais e dos instintos naturais
e também, em um estágio mais adiantado de cultura, do capricho e da
paixão conscientes. Esta restrição é parte do processo através do qual se
obtêm a consciência e o desejo de liberdade em sua forma verdadeira,
ou seja, racional e ideal. A idéia de liberdade necessariamente implica
lei e moral. Estas são em si e por si as essências, os objetos e os objetivos
a descobrir apenas através da atividade do pensamento, distinguindo-se
do que é simplesmente relativo aos sentidos e desenvolvendo-se em
oposição a isso – deve ser assimilado e incorporado com a vontade
original dos sentidos contra a sua tendência natural. O eterno equívoco
do que seja a liberdade é que ela só é conhecida em seu sentido subjetivo
formal, subtraído dos objetivos essenciais. Assim, a limitação de
impulso, desejo, paixão – que pertence apenas ao indivíduo particular
como tal – de capricho e deliberação, é considerada uma limitação da
liberdade. Ao contrário, esta limitação é a própria condição que leva à
emancipação; a sociedade e o Estado são exatamente as condições em
que a liberdade se realiza.
Em segundo lugar, há uma outra teoria que faz objeção ao desenvolvimento
da moral em forma jurídica. O Estado patriarcal é visto,
seja em relação a toda a sociedade ou a alguns de seus ramos (a família
do ser humano), como a condição em que, junto com o elemento
jurídico, o moral e o emocional se realizam. Por isso se acredita que a
justiça pode ser realmente levada adiante apenas com a união de seu
conteúdo com os elementos morais e emocionais. A base da condição
patriarcal é a relação de família. Esta se desenvolve como primeira
etapa da moral consciente, acompanhada pela do Estado, que é a
segunda etapa. A condição patriarcal é de transição, em que a família já
chegou a ser uma raça ou um povo. Portanto, a união já deixou de ser
apenas um laço de amor e confiança, tornando-se um laço de serviço.
Para compreender essa transição devemos examinar primeiro o princípio
ético da família. A família é uma única pessoa; Seus membros, como
parentes, renunciaram em comum à sua individualidade– e, conseqüentemente,
a suas relações legais uns para com os outros, bem como a seus
interesses e desejos particulares–ou ainda não chegaram à individualidade,
como as crianças, que inicialmente estão na simples condição
natural já mencionada. Eles vivem, portanto, em uma unidade de
sentimento, amor, confiança e fé uns para com os outros. No amor, um
indivíduo tem a consciência de si na consciência do outro, ele vive de
maneira altruísta. Nesta renúncia cada um ganha a vida do outro e
também a sua, que é uma só, com o outro. Todos os outros interesses da
vida, suas necessidades e preocupações exteriores como a educação das
crianças, por exemplo, constituem um objetivo comum para os membros
da família. O espírito da família – o penates – é um ser material,
como o espírito de um povo no Estado. Nos dois casos a moral é um
sentimento, uma consciência e uma vontade, não da personalidade e dos
interesses do indivíduo, mas da personalidade comum, do interesse de
todos õs membros. Mas, na família, essa unidade é essencialmente uma
unidade de sentimentos, permanecendo dentro dos limites naturais. O
sagrado das relações de família deverá receber o respeito máximo do
Estado. Através delas o Estado tem por membros indivíduos que já são
morais, como membros e em si mesmos, pois como simples pessoas eles
não o são; unindo-se para formar um Estado, os indivíduos trazem
consigo a sólida base de um edifício político, a possibilidade de sentir94
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
95
se um em um todo. A expansão da família para um conjunto patriarcal
estende-se além dos laços de um relacionamento de sangue, a base
natural e simples do Estado. Além desses limites os indivíduos devem
adquirir a posição que lhes dá a personalidade. Uma revisão minuciosa
da condição patriarcal nos levaria à discussão da teocracia. O chefe do
clã patriarcal também é seu sacerdote. Quando a família ainda não se
distingue da sociedade civil e do Estado, a separação da religião
também ainda não aconteceu – menos ainda, a partir do momento em
que a sua lealdade é em si (como a religião) um sentimento profundamente
interior.
c. O fundamento jurídico do Estado (A Constituição)
Já discutimos dois aspectos da liberdade: o objetivo e o subjetivo. Se
a liberdade implica o consentimento de cada indivíduo, naturalmente só
se considera o aspecto subjetivo. A partir deste princípio, conclui-se
como coisa natural que nenhuma lei é válida sem a aprovação de todos.
Isto implica que a maioria decide e por isso a minoria deve sujeitar-se
à maioria. Rousseau já havia observado que isto significa a ausência da
liberdade, pois a vontade da minoria é ignorada. Na Dieta polonesa
todas as decisões tinham de ser unânimes e foi esta espécie de liberdade
que destruiu o Estado. Além do mais, é uma pressuposição perigosa e
falsa achar que só o povo tem razão e perspicácia e sabe o que é justo
– pois cada facção popular pode colocar-se como sendo o Povo. O que
constitui o Estado é uma questão de inteligência instruída e não de uma
"decisão popular".
Se o princípio da vontade e do consentimento individual de todos é
reconhecido como a base única da liberdade constitucional, é que na
verdade não existe Constituição. A única instituição necessária seria a
de um observador neutro localizado no centro que anunciaria o que em
sua opinião seriam as necessidades do Estado, um mecanismo para
reunião dos indivíduos que lançariam seus votos aritmeticamente
contados e comparados em suas diversas propostas – e seria isto a
decisão; O Estado é uma entidade abstrata que tem sua realidade –
simplesmente generalizada – nos cidadãos. Mas ele é real e a simples
existência geral deve ser traduzida em vontade e cm atividade individual.
Surge assim a necessidade de governo e de administração, a
seleção de indivíduos que assumam a direção da administração política,
decidam a sua execução e comandem os cidadãos a quem foi confiado
este encargo. Desta maneira, mesmo na democracia, a decisão do povo
em guerra exige que um general tenha a chefia do exército. Só na constituição
a entidade abstrata do Estado tem vida e realidade – mas isto
envolve uma distinção entre os que dão ordens e os que obedecem. Mas
obedecer não parece estar em conform idade com a liberdade e aqueles
que dão ordens parecem agir em oposição ao conceito de liberdade, que
é o próprio fundamento do Estado.
Parece necessária a distinção entre dar ordens e obedecer para a
própria função do Estado. Por isso recomenda-se – sendo uma questão
de necessidade unicamente exterior, em oposição à natureza da liberdade
em seu aspecto abstrato – que a constituição seja elaborada de tal
maneira que os cidadãos tenham de obedecer o mínimo e as autoridades
tenham que dar o mínimo possível de ordens. A natureza e o grau de
qualquer autoridade necessária deveriam ser determinados e decididos
em grande medida pelo povo, ou seja, pela vontade da maioria; mas, ao
mesmo tempo, o Estado, como realidade e como unidade individual,
deveria ter força e poder.
A principal distinção a fazer, portanto, é entre o que governa e o
governado. As constituições foram classificadas corretamente como
aristocráticas, monárquicas e democráticas; entretanto, deve-se fazer
mais uma vez a distinção entre monarquia e despotismo. Também se
deve entender que tais classificações são tiradas de conceitos abstratos,
de maneira a enfatizar apenas as diferenças fundamentais. São tipos,
gêneros ou espécies que não podem explicar até à exaustão as realidades
concretas. Em especial, elas admitem um grande número de modificações
especiais, não apenas dentro dos tipos mas também entre os tipos
– e isto, mesmo quando essas fusões ou misturas de tipos levam a formas
acidentais, instáveis ou incoerentes. Nestes conflitos o problema é o de
determinar a melhor constituição – ou seja, aquela instituição, organização
ou mecanismo de governo que proporcione com maior segurança
a garantia da realização do objetivo do Estado. Naturalmente este pode
ser compreendido de maneiras diversas como, por exemplo, o gozo
tranqüilo da vida ou como a felicidade universal. Tais objetivos
produziram os chamados ideais de governo e especialmente os ideais da
96 A RAZÃO NA HISTÓRIA A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO 97
educação dos príncipes, como está em Fenelon,' ou a dos governantes
ou da aristocracia em geral, como está em Platão. Neles a ênfase é
colocada na natureza dos indivíduos governantes, o conteúdo das
instituições orgânicas do Estado não é absolutamente levado em consideração.
Em geral se acha que a questão da melhor constituição ou da
constituição superior às outras não é apenas em teoria uma questão de
convicção individual independente, mas que a sua introdução real
poderia ser também apenas uma questão de decisões unicamente
teóricas e, assim, a constituição seria uma questão de escolha livre
determinada por nada mais que a reflexão. Foi neste sentido bastante
simples que os magnatas persas – embora não o povo persa – deliberaram
sobre a constituição que desejavam introduzir na Pérsia, depois
que a sua conspiração contra os pseudo-smerdis e os magos fora bemsucedida
e não havia herdeiro da realeza. Heródoto conta esta deliberação
de modo também simples.
Hoje a constituição de um país c de um povo não é vista como sendo
tão inteiramente dependente de uma escolha livre. O conceito de
liberdade subjacente, mas considerado de maneira abstrata, resultou em
que a República é vista de modo bastante universal – em teoria – como
a única constituição justa c verdadeira. Mesmo muitos dos que têm altas
posições oficiais sob constituições monárquicas não resistem, estando
antes inclinados para com esses pontos de vista. Mas eles compreendem
que uma constituição deste gênero, embora ideal, não pode ser realizada
sob todas as circunstâncias. Sendo as pessoas o que são, deve-se estar
satisfeito com menos liberdade e, assim, a constituição monárquica, sob
as circunstâncias dadas e a condição moral do povo, é vista como sendo
a mais útil. Mesmo neste plano, a condição real em que se acredita
depender a constituição é vista como um Simples acidente externo. Esta
opinião se baseia na separação que fazem a reflexão e a compreensão
entre o conceito e sua realidade. Atendo-se a um conceito abstrato e por
isso não verdadeiro, elas não apreendem a idéia ou –o que vem a dar no
mesmo, no que diz respeito ao conteúdo, embora não à forma – não têm
16. Em seu Telêmaco (1699)– escri to depois de Fénelon haver sido preceptor do duque
de Burgúndia, que durante um ano (1711-1712) foi o herdeiro aparente do trono de Luís
XIV. Fénelon (1651-1715) também escreveu um Tratado sobre a educação das meninas,
que por um século foi o manual padrão sobre o assunto. Em 1695 ele se tornou arcebispo
de Ca mbrai. Seus escritos formam a transição do absolutismo para o iluminismo. (Nota de
Ha rima n.)
uma idéia concreta do que seja um povo e um Estado. Mais tarde
mostraremos que a constituição de um povo é feita da mesma matéria
e do mesmo espírito de sua arte e filosofia ou, pelo menos, de sua
inventividade, seus pensamentos e sua cultura geral – para não se
mencionar as outras influências exteriores do clima, de seus vizinhos e
de sua posição no mundo. Um Estado é uma totalidade individual de que
nenhum aspecto especial, nem mesmo um tão importante como a
constituição, pode ser isolado por si. Essa constituição também não
pode ser levada em consideração, discutida e selecionada em isolamento.
A constituição não apenas está intimamente ligada e depende
das outras forças espirituais, mas a determinação de toda a individualidade
espiritual, incluindo todas as suas forças, é apenas um momento na
história do conjunto, com o seu rumo predeterminado. É isso que
proporciona a mais elevada aprovação à constituição e o que estabelece
a sua necessidade. A origem do Estado é por um lado a dominação e,
pelo outro, a obediência instintiva. A obediência e a força, o temor de
um governante, já são uma ligação de vontades. Descobrimos que já nos
Estados primitivos a vontade do indivíduo não conta, que há a renúncia
da particularidade e que a vontade universal é o essencial. Esta união do
universal e o particular é a própria Idéia, presente como Estado e assim
desenvolvendo-se ainda mais. O rumo abstrato mas necessário do
desenvolvimento de Estados verdadeiramente independentes começa
portanto como o poder da realeza, patriarcal ou militar. Depois disso, a
individualidade e a particularidade devem afirmar-se na aristocracia e
na democracia. O fim é a sujeição desta particularidade sob um poder
que deve ser absolutamente de tal natureza que as duas esferas tenham
sua independência fora dele – ela deve ser monárquica. Devemos assim
fazer a distinção entre uma primeira (ou original) e uma segunda fase da
realeza. Este é um processo necessário, toda constituição deve passar
por ele. Portanto, uma constituição não é uma questão de escolha, mas
depende da fase de desenvolvimento espiritual do povo.
O importante em uma constituição é o desenvolvimento interno do
racional, ou seja, da condição política, a libertação dos sucessivos
momentos do conceito. As forças particulares devem tornar-se distintas,
cada uma completando a si mesma, mas ao mesmo tempo elas
devem cooperar livremente para um objetivo, mantendo-se unidas por
ele, formando assim um conjunto orgânico. Desta maneira o Estado é
liberdade racional e consciente, conhecendo-se objetivamente. Sua
98 A RAZÃO NA HISTÓRIA A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO 99
objetividade está precisamente no fato de que seus momentos não estão
presentes apenas de modo ideal, mas realizados em sua particularidade
e no fato de que eles passam por cima de sua atividade própria para a
atividade de que resulta a totalidade, a alma, a unidade individual.
O Estado é a idéia de espírito na manifestação exterior da vontade
humana e sua liberdade. Ele é portanto essencialmente o meio para a
mudança histórica, e nela, as fases da Idéia representam diversos
princípios. As constituições pelas quais os povos históricos do mundo
atingiram o seu florescimento são características deles e, assim, não nos
proporcionam uma base universalmente válida. Suas diferenças não
estão nos métodos individuais de elaboração e desenvolvimento e sim
nas diferenças de seus princípios. Assim, pouco se pode aprender a
partir de uma comparação com as constituições de povos históricos do
mundo mais antigos para o princípio político de nosso tempo, sendo o
princípio constitucional mais recente. É diferente, com a ciência e a
arte. A filosofia dos povos antigos, por exemplo, é de tal maneira a base
da filosofia moderna, que deve estar contida nesta última como sua
fundamentação. Aqui há uma relação de desenvolvimento contínuo de
uma estrutura idêntica, cujos alicerces, paredes e teto são ainda os
mesmos. A arte dos gregos é o modelo superior. Entretanto, no que diz
respeito à constituição, é diferente: aqui o velho e o novo não têm em
comum o princípio essencial, embora tenhamos em comum as especulações
e as doutrinas de um governo justo, de discernimento e virtude
do governante. Mas não há nada mais inadequado do que se usar como
modelos para nossas instituições constitucionais os exemplos da Grécia,
de Roma ou do Oriente. Do Oriente se pode tirar lindos quadros de
condições patriarcais, governo paternalista, devoção popular; dos gregos
e dos romanos, descrições da liberdade popular. Os gregos e os
romanos compreendiam o conceito de uma constituição livre que
concedesse a todos os cidadãos uma participação no conselho e nas
decisões das leis e dos negócios comunais. Em nossa época esta é
também a opinião geral, mas com uma alteração: os nossos Estados são
tão grandes e seu povo é tanto, que eles não podem contribuir com a sua
vontade para as decisões políticas diretamente, mas só indiretamente,
através de representantes. Para a legislação, o povo deve ser representado
por deputados. Uma constituição livre para nós depende da idéia de
governo representativo e isso tornou-se um firme preconceito. Assim,
povo e governo estão separados. Mas há algo de malicioso nesta
oposição, uma artimanha da má vontade, como se o povo fosse o todo.
No fundo dessa idéia também está o princípio da individualidade, a
qualidade absoluta da vontade subjetiva de que se falou acima. O
principal é que a liberdade, como é determinada pelo conceito, não se
baseia na vontade subjetiva e no capricho, mas na compreensão da
vontade geral e em que o sistema da liberdade é o livre desenvolvimento
de suas fases. A vontade subjetiva é um conceito inteiramente formal
que de maneira alguma diz o que deseja. Só a vontade racional é a
proposição universal que se determina e se desenvolve em si e que
desdobra seus momentos sucessivos de maneira orgânica. Os antigos
nada sabiam desta arquitetura de catedral gótica.
d. O fundamento religioso do Estado
Já estabelecemos como sendo os dois pontos de nossa discussão, em
primeiro lugar a idéia de Liberdade como objetivo final absoluto e, em
segundo, os meios para sua realização, o lado subjetivo do conhecimento
e da vontade, com sua vitalidade, mobilidade e atividade. Depois
discutimos o Estado como conjunto moral e a realidade da liberdade e,
assim, como unidade objetiva dos dois fatores precedentes. Embora
tenhamos separado os dois elementos para análise, deve-se lembrar
muito bem que eles estão intimamente ligados e que esta ligação está em
cada um deles, quando os examinamos em separado. Por um lado,
reconhecemos a Idéia em sua determinação, como liberdade conhecedora
de si e obstinada, que tem apenas a si como objetivo. Assim,
ela é ao mesmo tempo a simples idéia de razão e, da mesma forma, o que
chamamos de sujeito, a consciência de si, o Espírito que existe no
mundo. Por outro lado, examinando esta subjetividade, descobrimos
que a vontade e o conhecimento subjetivos são o Pensamento. Mas no
conhecimento e na vontade refletidos, eu desejo o objetivo universal,
a matéria da racionalidade realizada (do que é racional em si e por si).
Observamos assim uma união essencial entre o elemento objetivo, que
é o conceito (a Idéia) e o elemento subjetivo (a personalidade que a
concebe e a deseja). A existência objetiva dessa unidade é o Estado que
é, portanto, a base e o centro dos outros aspectos concretos da vida de
um povo – a arte, as leis, a moral, a religião e a ciência. Toda a atividade
espiritual tem apenas o objetivo de tornar-se consciente desta união, ou
seja, de sua liberdade. Entre as formas dessa união consciente, a religião
100
A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
101
é a mais elevada. Nela o espírito que existe no mundo se torna
consciente do Espírito absoluto e, nessa consciência de essência realizada
("ser em si e por si"), a vontade do homem renuncia a seu interesse
individual, colocando-a de parte em uma dedicação onde ele já não está
mais preocupado com os detalhes. Através do sacrifício o homem
expressa a sua renúncia da propriedade, de sua vontade, de seus
sentimentos pessoais. A concentração religiosa da mente aparece como
emoção, mas ela também passa à contemplação – o ritual é uma
expressão da contemplação. Uma segunda forma da união espiritual
entre o objetivo e o subjetivo é a Arte: ela aparece mais na realidade
sensível do que a religião; na sua mais nobre atitude ela deve representar
não, na verdade, o espírito de Deus, mas a forma do deus – e depois,
o divino, o espiritual, em geral. Ela torna o divino visível para a
imaginação e os sentidos. Mas a Verdade não apenas alcança a representação
e o sentimento, como acontece na religião, e a intuição, como
ocorre na arte, mas ela também atinge o espírito que pensa – leva à
terceira forma dessa união: a Filosofia. Este é seu resultado mais
elevado, mas livre e mais sábio. Não podemos examinar aqui estas três
formas, elas foram apenas mencionadas porque ocupam o mesmo
terreno que o objeto de nosso estudo, que é o Estado.
A proposição universal que aparece e se torna consciente no Estado,
a forma em que toda a realidade é moldada, é o que em geral é chamado
de cultura de uma nação." Entretanto, o conteúdo definido que recebe
a forma de universalidade e é contido na realidade concreta do Estado
é o espírito do povo. O Estado verdadeiro é animado por este espírito em
todos os seus negócios, guerras, instituições etc. Mas o homem deve
conhecer esse espírito c essa natureza essencial– que são seus – e chegar
à consciência de sua união com eles. Pois já dissemos que toda a moral
é a unidade da vontade subjetiva (ou pessoal) com a vontade geral (ou
universal). O espírito deve dar-se uma consciência expressa desta
unidade – o centro deste conhecimento é a religião. A arte e a ciência
são apenas diferentes aspectos desse mesmo conteúdo.
Ao discutir a religião é importante perguntar se ela reconhece a
verdade, ou Idéia, apenas em sua forma isolada ou em sua verdadeira
unidade. Em sua forma isolada: quando Deus é concebido como o Ser
abstrato mais elevado, Senhor dos Céus e da Terra, transcendendo o
17. Ver acima, p. 90. (Nota de I lartman.)
mundo, além e distante da realidade humana –ou em sua unidade: Deus
como a união do universal com o individual, em Quem mesmo o
individual é visto de maneira positiva, na Idéia da encarnação. A
religião é a esfera onde um povo se dá a definição daquilo que encara
como sendo o Verdadeiro. Uma definição contém tudo o que pertence
à essência de um objeto, reduzindo sua natureza a uma característica
fundamental simples como foco para todas as outras características – a
alma universal de todos os particulares. Assim, a concepção de Deus é
a fundamentação geral de um povo.
Neste aspecto, a religião está na associação mais próxima com o
princípio do Estado. A liberdade só pode existir onde a individualidade
é reconhecida como positiva no Ser divino. Existe ainda mais uma
associação entre a religião e o Estado: a existência secular é temporal
e se movimenta dentro do âmbito do interesse privado, sendo assim
relativa e injustificada. Sua justificação só poderá vir da justificação
absoluta de sua alma universal, que é seu princípio– este só é justificado
como determinação e existência da essência de Deus. Por esta razão o
Estado se baseia na religião. Escutamos isso repetido muitas vezes em
nossa época, o que nada mais significa senão o fato de que os indivíduos
devam temer a Deus para que estejam dispostos e preparados para
cumprir o seu dever, pois a obediência ao príncipe e à lei está naturalmente
ligada à reverência para com Deus. É verdade que a reverência
a Deus, que eleva o universal acima do particular, pode voltar-se contra
o particular – transformando-se em fanatismo – e trabalhar contra o
Estado, queimando e destruindo seus edifícios e instituições. Por isso
acredita-se que a reverência para com Deus deva ser temperada e
mantida em certo grau de frieza, a fim de que não ataque e destrua o que
por ela deve ser protegido e preservado. A possibilidade de um desastre
desse gênero existe nela, pelo menos em estado latente.
A convicção correta de que o Estado se baseia na religião pode
proporcionar a esta uma situação que pressupunha a existência do
Estado. Assim, para que preserve o Estado, a religião deve ser levada
para dentro dele – aos borbotões – de modo a que seja im pressa na mente
do povo. É bastante certo que o homem deva ser educado para a religião,
mas não como se para algo que ainda não existe. Quando dizemos que
o Estado é baseado na religião e que tem nela as suas raízes, queremos
dizer que essencialmente ele surgiu dela e que hoje e sempre continuará
a originar-se dela. Ou seja, os princípios do Estado devem ser vistos
102 A RAZÃO NA HISTÓRIA
A IDÉIA DE HISTÓRIA E SUA COMPREENSÃO
103
como válidos em si e por si mesmo, o que só pode acontecer até onde
eles sejam reconhecidos como determinações da própria natureza
divina. A natureza de sua religião, portanto, determina a do Estado e sua
constituição. Esta última originou-se realmente daquela: o Estado
ateniense e o romano só foram possíveis pelo paganismo característico
desses povos, assim como o Estado católico tem um espírito e uma
constituição diferentes de uma protestante.
Seria muito ruim se este recurso, esse desejo e esse esforço para
implantar a religião fossem um apelo de angústia e aflição, como tantas
vezes parece — como se expressassem o perigo de que a religião
estivesse a ponto de desaparecer ou já houvesse desaparecido do Estado.
Seria realmente muito pior do que este chamamento deixa pressupor,
pois ele admite que ainda se pode implantar e inculcar a religião como
um recurso contra esse mal. Mas a religião não é um artifício desse tipo.
A produção que ela faz de si é um processo muito mais profundo. Uma
outra tolice oposta a isso que encontramos em nossa época é a tendência
a criar e instituir constituições independentemente da religião. A
religião católica, embora compartilhe a cristandade com a protestante,
não reconhece no Estado a justiça e a moral interior, que são fundamentais
no princípio do protestantismo. Este afastamento da lei constitucional
e das próprias constituições da moral é necessário, devido à
característica daquela religião — ela não vê a lei e a moral como independentes
e materiais. Mas, excluídos assim da interioridade, de seu
último refúgio que é o santuário da consciência, o sossegado recanto em
que a religião tem sua morada, as princípios e as instituições constitucionais
estão destituídos de um centro real e permanecem abstratos e
indefinidos.
Em suma, a vitalidade do Estado nos indivíduos é o que chamamos
de Mora1.18 O Estado, suas leis e suas instituições são os direitos dos
cidadãos; sua natureza, seu solo, suas montanhas, ar e águas são a sua
terra, o seu país, a sua propriedade exterior. A história do Estado são os
seus feitos e o que seus ancestrais realizaram pertence aos cidadãos e
vive em sua memória. Tudo é possessão deles, da mesma forma como
por tudo isso eles são possuídos, pois constitui sua substância e o seu ser.
As mentes dos cidadãos estão cheias disso e as suas vontades são o
18. Sittlichkcit (costume) objetivo fundido com a Aforulitüt (moral) subjetiva. Ver a
Introdução, p. xxxii. (Nota de I Iartman.)
querer estas leis e o seu país. É esta totalidade amadurecida que faz Um
Ser, o espírito de Um Povo. A ela pertencem os indivíduos; cada
indivíduo é o filho de seu povo e, ao mesmo tempo, enquanto o seu
Estado está em desenvolvimento, é o filho de sua época. Ninguém fica
atrás, ninguém pode passar à frente dela. Este ser espiritual (o espírito
de seu tempo) é dela — ele é um de seus representantes — e é de onde ele
vem e onde ele permanece. Para os ateninenses, Atenas tinha um duplo
significado, o da totalidade de suas instituições e o nome da deusa que
representava o espírito e a unidade do povo.
O espírito de um povo é um espírito definido e, como se acabou de
dizer, é também determinado em conform idade com a situação histórica
de seu desenvolvimento. Assim, esse espírito é a base e o conteúdo das
outras formas de consciência que já foram mencionadas. O espírito na
consciência de si mesmo deve tornar-se um objeto de contemplação
para si. A sua objetividade envolve, em primeiro lugar, o início das
diferenças que em sua totalidade são as diversas esferas do próprio
espírito objetivo — da mesma forma como a alma existe apegas como
organização de seus membros, que a constituem juntando-se em uma
unidade simples. Dessa maneira o espírito é uma individualidade. Sua
essência é representada, reverenciada e gozada como Deus, na religião;
é apresentada como imagem e intuição, na arte, e é apreendida cognitivamente
e concebida como pensamento, na filosofia. Como a identidade
original de sua matéria, seu conteúdo e seu tema têm importância
em relação aos do Estado, essas formas diversas estão unidas de maneira
inseparável ao espírito do Estado. Apenas com uma religião assim pode
haver esta forma de Estado e somente com essa forma de Estado, esta
arte e esta filosofia.
Além do mais, o próprio espírito nacional definido é apenas um
indivíduo no curso da história do mundo. A história do mundo é a
manifestação do Divino, o absoluto desenvolvimento do Espírito em
suas formas mais elevadas. É este desenvolvimento que faz com que ela
atinja a sua verdade e a consciência de si. Os resultados das fases desse
processo são os espíritos nacionais da história do mundo, a definição de
sua vida moral, de sua constituição, arte, religião e ciência. Compreender
tais fases é o impulso infinito do Espírito do Mundo, seu
ímpeto irresistível, pois esta diferenciação e sua compreensão constituem
o seu conceito. A história do mundo apenas mostra como o
Espírito do Mundo aos poucos chega à consciência e ao desejo da
104 A RAZÃO NA HISTÓRIA
verdade. Surge no Espírito o alvorecer do conhecimento, ele descobre
pontos de enfoquel9 e, finalmente, atinge a consciência plena.
IV. O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO
1. O PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO
19. Conforme a explicação da autodiferenciação epistemológica do Espírito, indo da
forma do gesto à da ciência moderna, na Philosophie der symbolischen Formem Berlim,
1923-29, de Ernst Cassirer. Tradução para o inglês de Ralph Ma nheim – The Philosophy
ofSymbolic For,ns (New Haven, Yale Univ. Press, 1953). (Nota de Ha rtma n.)(Observação
da T: há tradução em espanhol e em francês, não há tradução brasileira ou portuguesa dessa
obra.)
Agora já aprendemos as características abstratas da natureza do
Espírito, os meios que ele usa para realizar sua Idéia e a forma que a sua
realização completa assume em uma existência exterior, ou seja, o
Estado. Resta apenas examinarmos o curso da história do mundo.
A mudança histórica, vista sucintamente, há muito foi entendida de
maneira geral como envolvendo um avanço em direção ao melhor, ao
mais perfeito. As mudanças que ocorrem na natureza, por mais infinitamente
variadas que sejam, mostram apenas um ciclo de repetição
constante. Na natureza nada de novo acontece sob o sol, a ação
multiforme de seus produtos leva ao aborrecimento. O mesmíssimo
caráter permanente reaparece de maneira continuada e toda a mudança
reverte a ele. Somente as mudanças no reino do Espírito criam o novo.
Esta característica do Espírito nos permitiu afirmar que no homem há
um aspecto totalmente diferente da característica da natureza: um
desejo voltado para o aperfeiçoamento. Este princípio que se modifica
sob as leis foi muito mal recebido por religiões como a católica e
também por Estados que desejam que o seu direito verdadeiro seja algo
estático ou, no mínimo, estável. Quando por princípio é reconhecida a
mutabilidade das coisas leigas, como os Estados, é excluída a religião,
como religião da verdade. Por outro lado, neste caso não se chega à
conclusão de se as mudanças, revoluções e destruição das condições
legítimas não sejam devidas a acidentes, descuidos e em especial à
licenciosidade e às paixões maléficas dos homens. O aperfeiçoamento
106 A RAZÃO NA HISTÓRIA O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 107
é na verdade algo quase tão indeterminado com o é a mutabilidade em
geral; ele não tem meta, objetivo ou um padrão de mudança. O melhor,
o mais aperfeiçoado a que se pressupõe chegar é algo inteiramente indeterminado.
O princípio do desenvolvimento implica ainda que isso esteja
baseado em um princípio interior, uma potencialidade pressuposta, que
se esforça por existir. Essa determinação formal é essencialmente o
Espírito –cujo cenário, cuja propriedade e cuja esfera de realização são
a história do mundo. Ela não se debate na ação externa dos acidentes,
pelo contrário, é absolutamente determinada e firme contra eles.
Utiliza-os para seus objetivos e domina-os. Mas o desenvolvimento
também é uma característica dos objetos naturais orgânicos. Sua
existência não é apenas dependente, sujeita às influências externas, mas
vem de um princípio imutável, uma simples essência, que primeiro
existe como germe. A partir dessa existência simples ele produz
diferenciações que a ligam às outras coisas. Assim, ele tem uma vida de
transformação contínua. Por outro lado, podemos observá-lo do ponto
de vista oposto, vendo nisso a preservação do princípio orgânico e de
sua forma. Desta maneira o indivíduo orgânico produz a si mesmo,
transforma-se realmente naquilo que é potencialmente. Da mesma
forma, o Espírito é apenas aquilo em que se transforma e transforma-se
realmente naquilo que é potencialmente. O desenvolvimento do organismo
continua de maneira imediata, direta (não dialética), sem impedimentos.
Nada pode interferir entre o conceito e a sua realização, entre
a natureza inerente do germe e a adaptação de sua existência à sua
natureza. É diferente com o Espírito. A transição de sua potencialidade
para a realidade é mediada pela consciência e a vontade. Estas são
mergulhadas primeiro na vida orgânica imediata, seu primeiro objetivo
é a sua existência natural como tal. Mas esta última, sendo animada pelo
Espírito, torna-se infinitamente exigente, rica (de uma riqueza moral) e
forte. Assim o Espírito está em guerra consigo mesmo, deve superar-se
como inimigo e como seu mais formidável obstáculo. O desenvolvimento,
que na natureza é um tranqüilo desdobramento, no Espírito é uma dura
luta interminável contra si mesmo. O Espírito realmente se esforça por
atingir seu próprio ideal, mas o esconde de si mesmo e se orgulha e tem
prazer nesta alienação de si mesmo.
O desenvolvimento histórico portanto não é o simples crescimento
inofensivo e sem oposição da vida orgânica, mas um duro trabalho feito
de má vontade contra si mesmo. Além do mais, não é um simples
desenvolvimento em geral, mas a obtenção de um resultado de conteúdo
inequívoco. Esta finalidade já afirmamos desde o início: é o Espírito em
sua essência, o conceito de liberdade. Este é o objetivo fundamental e,
por conseguinte, o princípio orientador do desenvolvimento. Através
dele o desenvolvimento recebe um sentido e um significado – exatamente
como na história romana, Roma é o objetivo e, assim, o
princípio orientador da investigação de acontecimentos passados. Ao
mesmo tempo, os acontecimentos se originam desse objetivo e têm um
significado e um conteúdo apenas com referência a ele.
Existem na história do mundo diversos grandes períodos que se
extinguiram, aparentemente sem maior desenvolvimento. Todo o seu
enorme ganho de cultura anterior foi aniquilado; infelizmente, devemos
começar tudo desde o início para chegar outra vez a um dos níveis
culturais que haviam sido atingidos muito tempo atrás – talvez com o
auxílio de algumas ruínas preservadas de antigos tesouros – com um
novo e imenso esforço de energia e tempo, de crime e de sofrimento. Por
outro lado, existem desenvolvimentos, estruturas e sistemas contínuos
de cultura em esferas especiais, ricos em espécies e muito bem desenvolvidos
em todas as direções. A visão simplesmente formal do desenvolvimento
não pode dar preferência a um ou outro rumo e também não
pode contar para que se compreenda a queda de períodos mais antigos.
Ela deve levar em consideração esses acontecimentos, especialmente
essas inversões, como acidentes externos. Pode julgar as vantagens
relativas desses modos de desenvolvimento apenas segundo pontos de
vista indeterminados – pontos de vista que são relativos exatamente
porque o desenvolvimento em geral é visto como objetivo único.
Portanto, a história do mundo representa as fases no desenvolvimento
do princípio cujo conteúdo é a consciência da liberdade. A análise de
suas fases geralmente pertence à Lógica. A de sua especial natureza
concreta pertence à Filosofia do Espírito.' Iremos aqui apenas repetir
que a primeira etapa é a imersão do Espírito na vida natural e a segunda,
a saída para a consciência de sua liberdade. Esta primeira emancipação
da natureza é incompleta e parcial, vem de sua naturalidade imediata,
1. Phãnomenologie des Geistes, 1807. Tradução para o inglês por Baillie, 1910, 1931.
(Nota de Hartman.)
108 A RAZÃO NA HISTÓRIA
O CURSO DA HISTORIADO MUNDO 109
ainda se refere a ela e por isso ainda está por ela sobrecarregada, como
um de seus elementos. A terceira etapa é a elevação da alma desta ainda
especial forma de liberdade para a pura universalidade da liberdade,
onde a essência espiritual chega à consciência e ao sentimento de si
mesma. Estas etapas são os princípios fundamentais do processo
universal. Cada uma delas é, mais uma vez, dentro de si mesma, um
processo de sua própria formação. Mas, deixemos o detalhamento dessa
dialética interior de transição para mais adiante.
Aqui temos apenas de mostrar que o Espírito começa com sua
possibilidade infinita, mas apenas possibilidade • com seu conteúdo
absoluto em uma forma subdesenvolvida, como seu objetivo e meta,
que só atinge em resultado de sua atividade. Somente neste momento,
e apenas neste momento, é que o Espírito atingiu a sua realidade. Assim,
a existência, progresso, aparece como um avanço a partir do imperfeito
para o mais perfeito. Mas o primeiro não deve ser tomado apenas em
abstração, como o simplesmente imperfeito e sim, como o que ao
mesmo tempo contém o seu próprio oposto como germe, o chamado
perfeito, um impulso dentro de si mesmo. Da mesma maneira, pelo
menos em pensamento, a possibilidade aponta para algo que deverá
tornar-se real – mais precisamente, a dynands aristotélica também é
potentia, poder e força. Assim, o imperfeito, sendo o oposto de si em si,
é sua própria antítese que por um lado existe mas, pelo outro, é anulado
e dissolvido. Ele é o impulso da vida espiritual em si, o anseio para
romper o envoltório da natureza, da sensualidade, de sua alienação, e
atingir a luz da consciência – ou seja, de seu próprio eu.
2. A ORIGEM DA HISTÓRIA
a. A pré-história da Razão
Já discutimos como o início da história do Espírito deve ser
compreendido em termos do conceito de liberdade, quando nos referimos
ao "estado natural" em que a liberdade e a justiça estariam ou
estiveram perfeitamente realizadas. Mas isso foi apenas uma suposição,
a suposição de uma existência história apresentada na incerteza da
hipótese. Há uma outra suposição de espécie totalmente diferente, hoje
colocada em circulação por certos grupos, uma afirmação que não é
apresentada como hipótese teórica mas como fato histórico - e não
apenas como fato histórico, mas como fato confirmado por instância
superior. Tal afirmação retoma novamente a velha idéia de um estado
paradisíaco e primitivo do homem que fora aperfeiçoada pelos teólogos
à sua maneira ao afirmarem, por exemplo, que Deus falara com Adão
em hebraico. Hoje isso foi revisto em conformidade.a outros interesses.
A autoridade superior em questão é a narrativa bíblica. Esta narrativa,
por um lado, representa as condições primitivas apenas através das
poucas características conhecidas e, por outro lado, considera que estas
características pertençam ao homem em geral (ou seja, à natureza
humana como tal) ou vê Adão como um indivíduo especial e, assim,
julga que essas características primitivas pertençam apenas a um
indivíduo ou um casal de seres humanos. No entanto, tais interpretações
não justificam a idéia de que tenha existido historicamente um povo
nessas condições primitivas e, menos ainda, que possamos atribuir a
esse povo um conhecimento puro de Deus e da natureza perfeitamente
desenvolvido. Diz-se que2 a natureza em sua origem estaria aberta e
transparente diante do olho inocente do homem, como um espelho
luminoso da criação divina e que a verdade divina também estava aberta
para ele. Chegava-se a insinuar, embora isso fosse deixado em certo
grau de obscuridade, que nessa condição primitiva os homens já
estivessem de posse de um conhecimento indefinido e bastante amplo
das verdades religiosas logo reveladas por Deus. Diz-se que todas as
religiões se originaram a partir desta condição supostamente histórica,
mas que elas teriam sido corrompidas e confundidas por erros e
perversões monstruosos. Apesar disso, em todas as mitologias inventadas
por esse erro supõe-se que estejam presentes e sejam reconhecidos
traços daquela origem e daquelas primeiras verdades religiosas. Os
estudos da história de povos antigos, portanto, estão essencialmente
interessados em voltar a um momento onde esses fragmentos da
2. Friedrich von Schlegel, Philosophy of History, "Bohn's Standard Library", p. 91.
(Nota de Hartman.)
110 A RAZÃO NA HISTÓRIA
O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO
111
primeira compreensão revelada ainda se encontrem em uma pureza
maior.3
Devemos a esse interesse boa parte de estudos importantes, mas esse
estudo em seguida presta um testemunho contra si próprio, pois tende
a confirmar como histórico apenas o que se pressupunha ser histórico.
Assim, diz-se que a história do mundo teria tido sua origem nesse
conhecimento de Deus ou em idéias científicas, como o conhecimento
da astronomia, atribuído aos hindus. Afirma-se que desses começos as
religiões dos povos teriam o seu ponto de partida tradicional, que a
seguir teriam sido pervertidos e degenerados como, por exemplo, nos
chamados sistemas de emanação, grosseiramente concebidos. Todas
essas são hipóteses arbitrárias e objetivas, que não têm nem podem ter
qualquer justificação histórica à luz da verdadeira concepção de história.
3. Devemos agradecer esse interesse por inúmeras descobertas preciosas na literatura
oriental e por um estudo revisado dos tesouros registrados anteriormente relativos à cultura,
mitologia, religiões e história da Ásia. Nos países católicos, onde prevalece um refinado
gosto literário, os governos se renderam às exigências da pesquisa especulativa e sentiram
a necessidade je aliar-se ao aprendizado e à filosofia. O abade Lamennais colocou-a de
maneira eloqüente e impressionante entre os critérios da verdadeira religião que deve ser
a universal (ou seja, a católica) e a mais antiga em data, e a congregação trabalhou zelosa
e diligentemente na França para fazer com que essas reivindicações não fossem mais
simples tiradas de púlpito e dizeres autoritários, como antes. A religião de Buda – um deushomem
– que prevaleceu por muito tempo, atraiu a atenção de modo muito especial. O
Trimurti indiano, como a abstração chinesa da Trindade, forneceu uma demonstração mais
clara da questão. Os estudiosos Abel Remusat e Saint Martin, por um lado, empreenderam
as mais meritórias pesquisas na literatura chinesa, tendo em vista fazer disso também uma
base de operações para pesquisa nz literatura mongol e, se possível, na tibetana. Por outro
lado, o barão von Eckslein, depois do estilo (adotado a partirde concepções superficiais que
havia na Alemanha sobre a filosofia natural e os maneirismos ao estilo de Fr. von Schlegel,
embora com maior genialidade dogue este)– em seu periódico,Le Catholique– levou mais
adiante a causa daquele catolicismo primitivo de maneira geral e, em especial, obteve para
os estudiosos da congregação o apoio do governo. Em conseqüência disso, foram enviadas
expedições ao oriente para ali descobrirem tesouros ainda escondidos (dos quais foram
antecipadas maiores revelações relativas a profundas questões teológicas, especialmente
sobre a grande antigüidade e as fontes do budismo), visando também promover os
interesses do catolicismo através deste método tortuoso mas cientificamente interessante.
(Nota de Hegel.) (Obs. da T: esta nota foi usada por Ha rtma n, na mesma tradução de Sibree.
Talvez por isso esteja vagamente confusa.)
A investigação filosófica pode e deve começar o estudo da história
apenas onde a Razão começa a manifestar sua existência no mundo,
onde aparecem a consciência, a vontade e a ação e não onde tudo isso
ainda é uma potencialidade irrealizada. A existência inorgânica do
Espírito, a capacidade ainda inconsciente – ou, se preferem, a excelência
– da liberdade, do bem e do mal e, assim, das leis não é o objeto
da história. A moral natural e ao mesmo tempo religiosa é a lealdade da
família. Nesta sociedade a moral consiste no próprio fato de que seus
membros se comportem uns para com os outros não por livre-arbítrio
como indivíduos, não como pessoas. É por essa mesma razão que a
família continua excluída do desenvolvimento em que a história teve
sua origem (ela é pré-histórica). Somente quando a unidade espiritual
passa além deste círculo de sentimento e amor natural, chegando
consciência da personalidade, é que surge o núcleo sombrio e rigoroso
em que nem a natureza nem o espírito são abertos e transparentes e onde
ambos podem tornar-se abertos e transparentes apenas através de mais
trabalho daquela vontade consciente e através do demorado processo
cultural, cujo objetivo é muito remoto. Só a consciência está aberta, só
para ela Deus e qualquer outra coisa podem se revelar. Nada pode
revelar-se em sua verdade, em sua universalidade concreta, a menos que
haja uma consciência que o perceba. A liberdade nada mais é senão o
reconhecimento e a adoção de objetivos materiais universais como o
Direito, a Lei e a produção de uma realidade que esteja em conformidade
com eles: o Estado.
Os povos podem ter tido uma longa vida antes de alcançar seu
destino de Estado. Durante esse tempo, podem mesmo haver obtido
uma grande cultura em algumas direções. Esta pré-história, como já foi
dito, está fora de nosso plano. Depois disso, esses povos podem ter tido
uma história real ou jamais haver chegado à formação de um Estado.
Nesses últimos vinte anos houve uma grande descoberta na história,
como se fosse a descoberta de um novo mundo: a do sânscrito e sua
ligação com as línguas européias. Isto nos proporcionou uma compreensão
da ligação que existe entre os povos germânicos e os indianos,
uma teoria que traz as certezas que tais questões permitem. Assim, hoje
sabemos com certeza que existiram povos que não chegavam a formar
uma sociedade, muito menos um Estado, mas que no entanto se sabe
também que existiram por muito tempo. Em relação a outros povos,
cuja condição civilizada desperta nosso especial interesse, a tradição
112
A RAZÃO NA HISTÓRIA
O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO
113
vai muito além da história da fundação de seu Estado. Muita coisa lhes
aconteceu antes disso. A ligação lingüística de povos tão amplamente
separados demonstra o fato incontestável de que estes povos se disseminaram
a partir da Ásia como centro e, ao mesmo tempo, também
demonstra a enorme diferenciação que houve no desenvolvimento a
partir de um parentesco na origem. Felizmente este fato não surge como
inferência deduzida do método preferido de juntar e enfeitar todo
gênero de circunstâncias, o que já enriqueceu e continua a enriquecer a
história com tantas fantasias apresentadas como fatos. Em todo caso,
estes limites aparentemente tão vastos de acontecimentos estão fora do
alcance da história – eles a precederam.
b. O Estado como condição da história
Em nossa língua, a palavra história* combina o lado objetivo e o
subjetivo. Significa ao mesmo tempo a historiam reruin gestarum e a res
gestas: os acontecimentos e a narração dos acontecimentos. Esta
combinação dos dois significados não deve ser vista como simples
acaso: é algo bastante significativo. Devemos supor que a narração da
história e os feitos e acontecimentos históricos aparecem ao mesmo
tempo – há um princípio interior comum que os produz simultaneamente.
As memórias das famílias e as tradições patriarcais têm um
interesse confinado à família e à tribo. O curso uniforme dos acontecimentos
sob tais condições não é um objeto para a memória, mas
acontecimentos distintos ou viradas da sorte podem fazer com que
Mnemósina forme imagens deles, da mesma forma como o amor e os
sentimentos religiosos estimulam a imaginação a dar forma a um
impulso anteriormente informe. É o Estado que apresenta em primeiro
lugar o assunto que não é apenas adequado à prosa da história, mas que
a cria junto com ele. Uma comunidade que adquire uma existência
estável e se eleva a Estado exige mais do que simples mandatos
subjetivos de governo, que bastam apenas às necessidades do momento.
Ela exige regras, leis, normas universais e universalmente válidas.
Assim ela produz e está interessada em um registro inteligente e preciso,
com resultados duradouros, de suas ações e acontecimentos. A estes,
* Em alemão, Geschichte, que vem de geschehen, acontecer. (Obs. da T.: esta nota é
do editor da tradução de Sibree e só existe nesta).
Mnemósina é levada a acrescentar a memória, para perpetuar a formação
e a constituição do Estado. Em geral os sentimentos mais
profundos, como os do amor e os da compreensão religiosa e suas
imagens, em si são completos e satisfatórios e estão sempre presentes.
Mas o Estado tem (não apenas uma objeção interior) em suas leis e
costumes racionais, ao mesmo tempo, uma existência exterior. Por isso,
sua simples situação presente está incompleta, sua compreensão exige
um conhecimento do passado.
Sejam séculos ou milênios, os períodos pelos quais passaram os
povos antes que a história fosse escrita talvez estivessem cheios de
revoluções, migrações ou transformações absurdas, mas não possuem
uma história objetiva, porque não apresentam uma história subjetiva,
não têm registros de história. Esses registros faltam, não por haverem
desaparecido acidentalmente pelos tempos afora, mas porque jamais
poderiam ter existido.
Somente em um Estado com a consciência das leis existem ações
claras e essa consciência é clara o suficiente para fazer com que os
registros sejam possíveis e desejáveis. Impressiona a todos os que
conhecem os tesouros da literatura indiana o fato de que este país, tão
rico em produtos intelectuais de grande profundidade, não tenha uma
história. Nisso, a Índia contrasta de maneira impressionante com a
China, que possui uma história notável, que vai até os mais antigos
tempos. A Índia não tem apenas livros antigos de religião e esplêndidos
trabalhos de poesia, mas também antigos códigos de leis – mencionados
acima como uma condição para a formação da história – e, mesmo
assim, não tem uma história. Neste país o desejo de organização, que
começa a diferenciar a sociedade, petrificou-se em seguida em distinções
naturais de castas. As leis dizem respeito aos direitos civis, mas fazemnos
dependentes destas distinções naturais. Elas basicamente determinam
as prerrogativas das castas umas para com as outras –erros em vez
de acertos, ou melhor, os privilégios das castas superiores sobre as
inferiores. Com isto, o elemento de moral está fora do esplendor da vida
indiana e suas instituições políticas. Devido à servido implícita nos
sistemas de castas, em toda relação histórica há uma arbitrariedade
extrema, uma dinâmica passageira que na verdade atormenta, sem um
objetivo de progresso ou desenvolvimento. Assim, não existe uma
memória refletida, não há um objeto para Menmósina. Uma fantasia
profunda e impetuosa vagueia por toda a região que, para poder criar a
114 A RAZÃO NA HISTÓRIA O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 115
história, precisaria de um objetivo dentro da realidade e, ao mesmo
tempo, de muita liberdade.
c. O papel histórico da língua
Por causa dessa condição, indispensável à história, houve incomensurável
aumento das famílias que se transformaram em tribos e das
tribos, que se transformaram em nações; a expansão resultante desse
aumento quantitativo – uma série de acontecimentos que por si já
mostram inúmeras complicações, guerras, revoltas e ruínas – ocorreria
sem que surgisse uma história. Além do mais, a expansão e o crescimento
orgânico no reino dos sons articulados ligado a este processo
permaneciam mudos e sem voz – foi um progresso furtivo, que passou
despercebido. A evidência filológica demonstra que as línguas que estes
povos falavam em suas rudimentares condições eram muito elaboradas,
sua compreensão era uma tarefa a que era preciso lançar-se por inteiro
e com enorme engenhosidade. Uma gramática abrangente e coerente é
um trabalho intelectual para mostrar as suas categorias. Além disso, é
fato que, com o avanço social e político da civilização, este produto
sistemático da inteligência é neutralizado e a língua se torna mais pobre
e menos sutil. É um fenômeno estranho que o avanço em direção a uma
espiritualidade maior e o cultivo da racionalidade desprezem esta complexidade
inteligente e esta expressividade, achando nisso um incômodo
dispensáve1.4 A fala é obra da inteligência teórica, em seu verdadeiro
sentido – é a sua expressão exterior. Sem a linguagem, os exercícios de
memória e de imaginação são manifestações diretas (não teóricas). Essa
realização teórica e seu conseqüente desenvolvimento e também os
fatos objetivos a ela associados – a disseminação dos povos sobre a
terra, a separação uns dos outros, seu entrelaçamento e suas perambulações
– permanecem encobertos na obscuridade de um passado silencioso.
Não são atos de uma vontade que se torna consciente, nem atos
4. Não é tão estranho como Hegel pensa. O processo que vai da grande elaboração à
simplicidade da língua é um processo que vai da concretitude à abstração. Enquanto as
línguas se empobrecem em expressões concretas (como, p. ex., as 5744 palavras para
"camelo" no árabe dos beduínos), tornam-se mais ricas em referências simbólicas. (Nota de
Ha rtman.)
de uma liberdade que se dá uma forma fenomenal e uma realidade.
Esses povos não compartilham o verdadeiro elemento da história,
apesar do desenvolvimento de sua língua. Por essa razão, eles não
atingiram existência histórica. O rápido crescimento da língua e o
progresso e dispersão das nações ganham um significado e um interesse
pela Razão apenas quando entram em contato com os Estados ou
quando começam a formar Estados autônomos.
3. O RUMO DO DESENVOLVIMENTO
As observações acima são o suficiente para o início da história do
mundo e os períodos pré-históricos que estão excluídos dela. Agora
devemos examinar mais atentamente o seu rumo, embora aqui apenas
de maneira formal.
a. O princípio de uni povo
Como já foi demonstrado, a história do mundo representa o desenvolvimento
da consciência de liberdade que tem o Espírito e a conseqüente
realização dessa liberdade. Este desenvolvimento implica um
progresso gradual, uma série de diferenciações cada vez mais reais,
resultantes da idéia de liberdade. A natureza lógica e, mais ainda, a
natureza dialética desse conceito em geral, a necessidade de seu
desenvolvimento abstrato são tratadas na Lógica. Aqui se mostra que
ele é autodeterminado, que assume formas sucessivas a que vai sucessivamente
transcendendo e, através desse mesmo processo de anulação
e transcendência, obtém uma forma afirmativa, cada vez mais enriquecida,
mais concreta e mais determinada. Aqui devemos adotar
apenas um de seus resultados – cada fase, sendo diferente da outra, tem
o seu princípio característico e preciso. Na história, o princípio é a
diferenciação do Espírito, é um espírito nacional particular. Nesta
forma particular, um espírito nacional expressa concretamente todos os
aspectos de sua vontade e de sua consciência, toda a sua realidade. Esse
princípio define os traços comuns de sua religião, sua constituição
política, sua moral, seu sistema legal, seus costumes e até de sua ciência,
sua arte e sua habilidade técnica. Estas características especiais devem
116 A RAZÃO NA HISTÓRIA
O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 117
ser compreendidas à luz da particularidade universal,' que é o princípio
particular que caracteriza um povo. Por outro lado, aquele universal
pode ser percebido no detalhamento factual das particularidades.
O fato de que essa ou aquela qualidade ou principio particular de um
povo seja realmente uma particularidade muito clara e bem definida é
um ponto que deve ser examinado empiricamente e provado historicamente.
Isto pressupõe uma experiente capacidade de abstração e
também um bom conhecimento da Idéia. Deve-se ter uma intimidade,
por assim dizer, a priori, com toda a esfera de conceitos a que pertence
o princípio–exatamente como Kepler, para mencionar-se o maior neste
modo de pensamento, a priori teve de conhecer muito bem as elipses,
os cubos, os quadrados e suas relações. Só depois, aplicando estes
conceitos matemáticos aos dados empíricos, é que ele foi capaz de
descobrir suas leis imortais, que consistem na determinação destes
conceitos.6 Quem ignora a ciência que abrange tais definições elementares
não conseguirá compreender ou descobrir estas leis, por mais que
passe o tempo todo olhando para o céu e os movimentos das estrelas. O
desconhecimento das idéias relacionadas ao desenvolvimento da liberdade
em parte dá origem a algumas das censuras levantadas contra o
tratamento filosófico de uma ciência vista em geral como empírica e,
em especial, contra o chamado método a priori e a introdução de idéias
nos dados empíricos da história. Essas idéias aparecem então como algo
estranho à matéria. Para uma mente sem o conhecimento e a disciplina,
certamente elas são estranhas e vão além da concepção que sua ignorância
forma do objeto. Daí a afirmação de que a filosofia não abrange
estas ciências. A filosofia deve na verdade concordar no fato de que
realmente não possui o tipo de compreensão que regra a essas ciências
e de que também não procede segundo as categorias que exigem esse
gênero de compreensão, mas, em vez disso, age segundo as categorias
da Razão. Estas permitem-lhe a compreensão e ainda o conhecimento
de seu valor e sua posição sistemática. Nesse procedimento científico é
necessário também separar o que é essencial do que não é essencial e
5.0 "princípio" é universal em relação às formas culturais, mas particular em relação
ao espírito. (Nota de Hartman.)
6. Em outras palavras, assim como se deve conhecer a matemática antes de aplicá-la
à natureza, deve-se conhecer a dialética da Idéia antes de aplicá-la à história. (Nota de
Hartman.)
compará-los entre si. Entretanto, para fazer isso, deve-se saber o que é
essencial – e o essencial na história do mundo, vista de maneira geral,
é a consciência da liberdade e a compreensão do desenvolvimento dessa
consciência. O rumo dos fatos históricos nesta categoria é a direção que
vai para o que é verdadeiramente essencial.
Parte dos argumentos e das objeções levantados contra essa determinação
através dos universais geralmente vem da falta de compreensão
e de entendimento das idéias. Se em história natural um crescimento
monstruoso ou híbrido é apresentado como exemplo contra a correta
ordem das espécies e classes, podemos então aplicar corretamente o que
em geral é dito de maneira imprecisa – que a exceção comprova a regra;
isso é o mesmo que dizer que a regra demonstra as condições sob as
quais se aplica e ressalta a deficiência, o hibridismo, que consiste no
desvio daquilo que é normal. A simples natureza é frágil demais para
manter puros os seus gêneros e espécies contra as influências naturais
conflitantes. Se, por exemplo, ao levarmos em consideração a organização
do ser humano em seu aspecto real, afirmamos que o cérebro, o
coração e os órgãos são necessários à sua vida orgânica, pode-se
apresentar algum aborto infeliz que tenha em seu conjunto a forma
humana ou partes dela. Ele terá sido gerado em um corpo humano, nele
viveu e respirou depois do nascimento, embora não tenha um cérebro ou
um coração. Se um exemplo desse tipo é citado contra a concepção geral
de um ser humano – o opositor insistindo em usar a palavra ligada a uma
idéia superficial do que ela represente – pode-se provar que um ser
humano verdadeiro é algo realmente diferente disso. Ele deve ter um
cérebro em sua cabeça e um coração em seu peito.
Usamos um processo de raciocínio semelhante quando se diz
corretamente que os gênios, os talentos, a devoção, as virtudes morais
e os sentimentos aparecem em todas as regiões, sob todas as constituições
e condições políticas. Existem muitos exemplos para confirmar
isso. Entretanto, se esta afirmação significa repudiar essas distinções
como não tendo importância ou não sendo essenciais, é evidente que a
reflexão se limita às categorias abstratas e despreza qualquer conteúdo
específico– para o qual, é verdade, estas categorias não podem fornecer
nenhum princípio. O ponto de vista que adota essas perspectivas
meramente formais apresenta um vasto campo para perguntas engenhosas,
idéias eruditas e comparações impressionantes, reflexões e declarações
aparentemente profundas, que podem ser ainda mais brilhantes,
118 A RAZÃO NA HISTÓRIA
O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO
119
quanto mais impreciso for seu assunto. Além do mais, elas podem ser
infinitamente diversificadas em proporção inversa à certeza e nacionalidade
a ser obtida por seus esforços. Neste sentido, as conhecidas
epopéias indianas podem ser comparadas com as homéricas e, tomando-
se a amplitude da imaginação como demonstração de genialidade
poética, podem ser colocadas acima delas. Ora, pode-se encontrar
semelhanças em algumas características fantásticas das divindades
gregas e indianas e afirmar reconhecer figuras da mitologia grega na
indiana. Da mesma maneira, o Uni (Tao) na filosofia chinesa já foi
considerado o mesmo que apareceu em período posterior na filosofia
eleática, TS EV Kat rav e no sistema de Spinoza (a substância). Como
isso também se expressa em linhas e números abstratos, já foi visto nos
princípios pitagóricos e nos cristãos. Exemplos de coragem, temeridade
indomável, traços de nobreza, de abnegação e desprendimento encontrados
entre as nações mais selvagens e entre as mais pusilânimes são
vistos como prova suficiente de que nelas existem tanto ou mais moral
e ética quanto nos Estados cristãos mais civilizados– e assim por diante.
Baseada nisso, surge então a dúvida de se os homens no progresso da
história e no desenvolvimento da cultura se teriam tornado melhores,
afinal, ou se a sua moral teria aumentado – entendendo-se aqui moral
apenas como a intenção e compreensão subjetivas do agente, sua
própria idéia do que é certo ou errado, do que é o bem ou o mal, e não
como um princípio que seja por si mesmo correto e bom, errado e mau,
não como uma determinada religião que se acredita ser a verdadeira.
Não precisamos deixar evidente o formalismo e o erro que há em
uma visão como essa, nem estabelecer os verdadeiros princípios da
moral – ou antes, opor a ética à falsa moral. A história do mundo está
em um nível mais elevado do que o da moral. A localização da moral é
o sentimento individual, a consciência pessoal, a maneira de agir e a
vontade particulares. Estes têm os seus próprios valores, responsabilidades,
recompensas ou castigos. As exigências e as realizações do
objetivo absoluto do Espírito, trabalho da Providência, estão acima das
obrigações e responsabilidades que recaem sobre os indivíduos em
relação à sua moral. (Um indivíduo pode repelir por razões de ordem
moral e por razões imorais fazer avançar o curso da história.) Os que
rejeitaram o necessário progresso do Espírito por inflexibilidade moral
e nobreza de sentimentos permanecem superiores em valor moral aos
cujos crimes, em nome de um objetivo mais elevado, transformaram-se
em meios de levar adiante a vontade que havia atrás desse objetivo. Em
revoluções do gênero os dois grupos estão na mesma esfera de desastre.
Portanto, é apenas um direito formal, desamparado pelo Espírito vivo e
por Deus, que mantêm os defensores do antigo direito e da antiga ordem
(não importando o quão moral sejam). Os feitos ■, dos grandes homens
que são as personalidades da história do mundo parecem assim justificados
em seu significado intrínseco inconsciente e também do ponto de
vista da história do mundo. Não tem a menor importância e não é conveniente
levantar pretensões morais contra os atos e os agentes da
história do mundo. Eles permanecem fora dos limites da moral. A
ladainha das virtudes da modéstia, da humildade, do amor e da caridade
não deve ser erguida contra eles. A história do mundo poderia a
princípio ignorar inteiramente o círculo da moral e a sua tão falada
diferença em relação à política. Ela não apenas pode abster-se de
opiniões morais – seus princípios e as necessárias relações das ações
para eles já são a sua opinião – mas também deixar os indivíduos
totalmente fora da vista e sem menção. O que ela deve registrar são as
atuações dos espíritos dos povos. As formas individuais que esse
espírito assume na esfera da realidade externa poderiam ser deixadas
para a historiografia.
O mesmo formalismo que descobre tudo em toda parte também anda
por aí com idéias nebulosas de gênio, poesia e filosofia, encontrandoas
por toda a parte, da mesma forma. Essas idéias são produtos de uma
reflexão generalizada, que escolhe e dá nome a distinções essenciais,
movimentando-se com agilidade, sem ir ao fundo da questão. Isso é o
que chamamos de cultura geral –algo apenas formal que nada mais visa
senão à análise de um assunto, seja ele qual for, em seus elementos
constituintes, e à compreensão desses elementos através de definições
conceituais e formas de pensamento. Isso não é a universalidade livre
que tem de se transformar em um objeto de consciência. Essa consciência
do pensamento e suas formas isoladas de todo conteúdo é a
filosofia. A condição para sua existência é realmente a cultura geral,
pois sua função é investir o conteúdo dado das formas da universalidade,
de tal maneira que forma e conteúdo se tornem inseparáveis e tão
inseparáveis, que o conteúdo é visto como puramente empírico, sem
qualquer mistura de pensamento. A análise de uma idéia em uma
imensidão de idéias amplia dessa maneira o conteúdo, dotando-o de
uma incomensurável riqueza.
120 A RAZÃO NA HISTÓRIA
O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 121
Mas também não deixa de ser um ato de pensamento, ou melhor, de
compreensão, transformar um objeto que em si abrange um grande
conteúdo material em uma idéia simples, designando-a por um nome'
(como terra, homem, Alexandre, César), e analisar o conceito, isolar em
pensamento os significados que ele contém e dar-lhe nomes especiais.
Daí se conclui que, assim como a reflexão produz os conceitos universais
de gênio, talento, arte, ciência, a cultura formal não apenas pode
mas deve progredir em todas as fases do desenvolvimento intelectual
e atingir um grande amadurecimento quando ela chega à reflexão
abstrata e universal – o que faz quando se forma em Estado. Em uma
base como essa a civilização progride até a compreensão ponderada e
a universalidade abstrata, não apenas em leis, mas em tudo. Quando os
homens se unem em um Estado, surge a necessidade da cultura formal
e, com isso, aparecem as ciências, uma poesia mais requintada e a arte,
de maneira geral. Além disso, as belas artes por seu lado técnico exigem
a associação civilizada dos homens. A poesia tem menor necessidade de
exigências e recursos externos e tem como seu material um elemento
natural, que é a voz humana, por isso ela surge com enorme vitalidade
e plenamente desenvolvida em uma fase onde um povo ainda não
atingiu a unidade através das leis. Como já foi observado, a língua
atinge um grande desenvolvimento intelectual antes do começo da
civilização.
A filosofia também deve aparecer na vida de um Estado. O processo
pelo qual o conteúdo se torna um elemento de cultura, como acabamos
de mostrar, é a forma que pertence à esfera do pensamento. Assim, a
filosofia, que não é senão a consciência dessa mesma forma, o pensamento
do pensamento, recebe o material que servirá à construção de seu
edifício já preparado da cultura geral. No desenvolvimento do Estado
devem ocorrer períodos que impelem a alma das naturezas mais nobres
a escapar do presente, indo para regiões ideais, onde elas poderão
encontrar a harmonia consigo mesmas, algo de que já não podem gozar
no mundo real desintegrado. Durante estes períodos, a inteligência
reflexiva ataca a tudo que é sagrado e profundo que foi introduzido
naturalmente na religião, nas leis e nos costumes. Ela nivela e dissolve
isso tudo em generalizações ímpias e abstratas. O pensamento é levado
7. Esta é a função que Hegel não conseguiu associar ao desenvolvimento da língua. Ver
a nota 4, na pág. 114. (Nota de Hartman.)
a tomar-se Razão ponderada a fim de tentar em seu próprio elemento a
restauração da ruína a que o pensamento foi levado.
É verdade que encontramos a poesia, as belas-artes, a ciência e
mesmo a filosofia em todos os povos da história do mundo. Não apenas
o estilo e a orientação são diferentes em geral, mas o conteúdo é ainda
mais diversificado. Este conteúdo diz respeito à m \-iior das diferenças,
a da racionalidade. É um erro dizer que seja a forma e não o conteúdo,
o que importa. É inútil a crítica estética pretensiosa exigir que o
conteúdo material não determine o nosso prazer estético, sustentando
que a forma bela ou a grandeza de imaginação e coisas afins sejam o
objetivo das artes; diz-se que é isso que deve ser notado e apreciado por
um gosto liberal ou a mente cultivada. O bom senso não tolera essas
abstrações e não assimila trabalhos do gênero. Considerando-se que os
épicos indianos estejam no mesmo nível dos homéricos devido a muitas
qualidades formais como a grandiosidade criativa e inventiva, a vivacidade
de imagens e emoções, a beleza da dicção, resta ainda uma infinita
diferença de conteúdo e, portanto, o essencial. Resta aí o interesse da
Razão, que está voltado diretamente para a consciência do conceito da
liberdade e sua expressão e desenvolvimento nos indivíduos. Não é
apenas uma forma clássica, mas um tema clássico. O conteúdo e a forma
estão ligados tão intimamente em um trabalho de arte, que o primeiro
só pode ser clássico até o ponto onde o último o seja. Com um fantástico
conteúdo que não se limita intrinsecamente – o razoável é exatamente
aquilo que tem uma medida e um objetivo em si mesmo – a própria
forma se torna desmesurada, e informe ou (ao inverso do conteúdo) insignificante
e limitada. Na comparação entre as diversas filosofias de
que já falamos, apenas um aspecto importante foi descuidado, ou seja,
a natureza desta unidade que é encontrada da mesma maneira na
filosofia chinesa, na eleática e na de Spinoza. Esta unidade é vista como
concreta ou abstrata e, quando concreta, é de uma concretitude em si e
por si, uma unidade que é sinônima de Espírito? 8 Este nivelamento,
entretanto, demonstra que se reconhece uma simples unidade abstrata.
Assim, ao julgar-se a filosofia, ignora-se o que constitui o verdadeiro
interesse da filosofia.
No entanto, também existem esferas que permanecem iguais, apesar
8. Na primeira edição: "... é esta concretitude a da maior concrelitude, a do espírito."
(Nota de I lartman.)
122 A RAZÃO NA HISTÓRIA O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 123
de toda a diversidade dos conteúdos culturais. Essa diversidade diz
respeito à Razão ponderada e à liberdade, da qual a Razão é a
consciência e a qual tem a mesma raiz do Pensamento. Como não é o
animal, mas apenas o homem quem pensa, é só ele que tem a liberdade
– e somente porque ele pensa. A consciência faz com que o indivíduo
se compreenda como pessoa, em sua singularidade como um universo
em si mesmo, capaz de abstração, de submeter toda a particularidade e
por isso entendendo-se como sendo inerentemente infinito. Portanto, as
esferas que estão fora da sua compreensão (ou seja, as que não são
individuais) são a base comum dessas diferenças culturais. Mesmo a
moral, tão intimamente associada à consciência da liberdade, pode ser
muito pura mesmo quando essa consciência ainda esteja ausente. Ela
expressa apenas os deveres e os direitos gerais como ordens objetivas ou
se detém em normas simplesmente negativas, como a elevação formal
da alma, a renúncia à sensualidade e a todos os motivos sensuais. A
moral chinesa obteve os maiores louvores e o reconhecimento dos
europeus desde o momento em que estes passaram a conhecer a sua ética
e os textos de Confúcio, especialmente de parte daqueles que tinham um
bom conhecimento da moral cristã. Também é reconhecida a magnificência
com que se expressam a religião, a filosofia e a poesia (em sua
forma mais elevada) da Índia, pedindo a eliminação e o sacrifício da
sensualidade. Deve-se no entanto dizer que estas duas nações não têm
absolutamente a consciência essencial do conceito de liberdade. Para os
chineses, as leis morais são como leis da natureza – exteriores, ordens
positivas, direitos e deveres compulsórios ou regras de cortesia de uns
para com os outros. Está ausente a liberdade através da qual as
determinações materiais da Razão se tornam convicção moral. A moral
é uma questão que pertence ao Estado, manipulada pelos funcionários
do governo e pelas cortes.' Os tratados do Estado sobre ela, que não são
códigos de leis, mais dirigidos à vontade e à disposição subjetivas, se
parecem com os escritos sobre a moral dos estóicos – uma série de
normas que se supõe necessárias para chegar à felicidade; por isso, aparentemente,
o indivíduo está livre para adotá-las: ele pode ou não
9. Aqui aparece claramente a distinção que Hegel tem em mente o tempo todo entre o
Estado como sistema burocrático de normas e ordens, por um lado, e como cultura de um
povo, por outro. O primeiro não comporta a moral, o segundo a comporta. (Nota de
Hartman.)
obedecê-las. Na verdade ela é a representação de um tema abstrato, o
sábio, que para os moralistas chineses e os estóicos é o ponto culminante.
Na doutrina indiana da renúncia da sensualidade, dos desejos e
dos interesses mundanos, o objetivo e a finalidade não são a liberdade
moral positiva, mas a aniquilação da consciência e a inércia espiritual
e mesmo física.
O que devemos reconhecer claramente é o espírito real de um povo.
Sendo espírito, ele só poderá ser apreendido espiritualmente, através do
pensamento. É este espírito que surge em todos os feitos e todas as
tendências do povo, é ele que se realiza, que satisfaz seu ideal e que se
conhece. Entretanto, a mais elevada realização do espírito é o conhecimento
de si mesmo e não apenas o conhecimento intuitivo, mas um
conhecimento racional de si mesmo. Isto ele deve e está destinado a
realizar, mas esta realização é ao mesmo tempo a sua queda. É a
ascensão de um outro espírito, um outro povo da história do mundo, uma
outra época dessa história. Esta transição e ligação dos espíritos
nacionais nos levam à ligação do conjunto, ao conceito de história do
mundo, que iremos agora examinar mais de perto e que devemos
entender.
b. A dialética dos princípios nacionais
A história do mundo em geral é o desenvolvimento do Espírito no
Tempo, assim como a natureza é o desenvolvimento da Idéia noEspaço.
Quando damos uma espiada na história do mundo de maneira geral,
vemos um enorme quadro de transformações e atuações, uma infinidade
de povos, Estados e indivíduos diversificados, em contínua sucessão.
Tudo aquilo que pode entrar e interessar à mente do homem, todo o
sentimento de bondade, beleza ou grandiosidade entra em jogo. Por
toda parte são adotados e perseguidos objetivos que reconhecemos, cuja
realização desejamos – temos expectativas e receios por eles. Em todos
estes acontecimentos e mutações vemos a atividade humana e o
sofrimento predominando, por toda a parte existe algo que nos pertence
e, assim, por toda parte há algo que nos leva a tomar partido a favor ou
contra. Às vezes somos atraídos pela beleza, a liberdade e a riqueza,
outras vezes pela energia, através dos quais até o vício se torna
interessante. Em outros momentos, vemos a imensa massa de um
interesse universal movimentar-se pesadamente para diante, apenas
124 A RAZÃO NA HISTÓRIA

O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 125
para ser abandonada e pulverizada por uma complexidade infinita de
circunstâncias insignificantes. Vemos novamente então os resultados
diminutos de gigantescos gastos de forças ou imensos resultados de
causas aparentemente mínimas. Por toda a parte, a mais variegada
multidão de acontecimentos nos atrai para o seu círculo – quando um
desaparece, outro rapidamente toma seu lugar.
Esta incessante sucessão de indivíduos e povos existindo por algum
tempo e desaparecendo em seguida nos apresenta um pensamento
universal, uma categoria: a da mutação, em geral. Para compreender
esta mutação em seu lado negativo, temos apenas de olhar para as ruínas
do esplendor passado. Que viajante não se emocionou com as ruínas de
Cartago, Palmira, Persépolis ou Roma, entristecendo-se ao pensamento
de uma vida florescente e cheia de energia agora encerrada? Essa
tristeza não se está em uma perda pessoal e na efemeridade dos próprios
objetivos, é uma tristeza desinteressada pelo fim de uma vida humana
esplêndida e muito desenvolvida. Mas passamos a um outro pensamento
da mesma forma associado intimamente à idéia de mutação, o fato
positivo de que a ruína também é ao mesmo tempo o surgimento de uma
vida nova, de que da vida surge a morte e da morte, a vida. Este é um
grande pensamento que os orientais compreenderam plenamente e que
é o mais elevado pensamento da sua metafísica. Na idéia da migração
das almas ela se refere aos indivíduos. Em sua imagem talvez mais
conhecida a Fênix está relacionada a toda vida natural, eternamente
preparando a sua pira e se consumindo de maneira a que de suas cinzas
surja sempre a vida nova e rejuvenescida. Mas este quadro é asiático e
não ocidental. O Espírito, devorando seu envoltório mundano, não
passa apenas para um outro envoltório, não renasce rejuvenescido das
cinzas de seu corpo, mas delas ressurge glorificado, transfigurado, um
Espírito mais puro. É verdade que ele age contra si mesmo, devora sua
própria existência – mas, ao fazer isso, elabora essa existência, o corpo
se torna material para o trabalho de elevar-se para um novo corpo.
Devemos então refletir sobre o espírito neste aspecto. Suas transformações
não são simples transições rejuvenescedoras, retornos à mesma
forma. Elas são aperfeiçoamentos de si mesmo, através dos quais
multiplica o material para seus esforços. Assim, ele experimenta muitas
dimensões e várias direções, desenvolvendo e exercitando-se, satisfazendo
a si mesmo incansavelmente. Cada uma de suas criações, que
já o satisfizeram, apresenta um novo material, um novo desafio para um
aperfeiçoamento maior. O pensamento abstrato da simples mutação dá
lugar ao pensamento do Espírito que se manifesta, se desenvolve e
aperfeiçoa suas forças em todas as direções que sua natureza multiforme
pode seguir. Compreendemos as forças que ele possui pela multiplicidade
de seus resultados e suas formações. Nesta atividade cheia de
prazeres ele trata apenas de si mesmo. Embora envolvido com as
condições da natureza interior e exterior, ele não irá realmente opor-se
a elas ou colocar-lhes obstáculos, mas irá muitas vezes falhar e sentirse
derrotado pelas complicações em que se emaranha pela natureza ou
por si mesmo. Quando ele sucumbe, é no decorrer de sua função e de seu
destino e, mesmo nesse instante, ele oferece o espetáculo de se haver
provado como atividade espiritual.
A própria essência do espírito é a ação. Ele se torna o que essencialmente
é – ele é o seu produto, o seu próprio trabalho. Assim, ele se
torna o objeto de si mesmo, vê-se como uma existência exterior e, da
mesma forma, o espírito de um povo: é um espírito de características
muito bem definidas, que se constrói em um mundo objetivo. Este
mundo existe e permanece em sua religião, seu culto, seus costumes,
sua constituição e suas leis políticas em toda a esfera de suas instituições,
seus acontecimentos e seus feitos. Este é o seu trabalho: um
povo, é isso que é uma nação! Os povos são o que são os seus feitos.
Todos os ingleses dirão: "Somos os homens que navegam pelo oceano
e que dominam o comércio mundial, somos os senhores das Índias
Orientais e de suas riquezas, temos um parlamento, um sistema jurídico"
– e assim por diante. A função do indivíduo é apossar-se de sua
existência material, tornando-a parte de seu caráter e de sua capacidade,
fazendo com que dessa maneira ele tenha um lugar no mundo. Ele
descobre a existência do povo a que pertence como um mundo já
estabelecido, um mundo estável, a que deve adaptar-se. Assim, o
espírito do povo goza de sua existência, satisfazendo-se com ela em seu
trabalho, em seu mundo.
O povo é moral, virtuoso e forte enquanto está empenhado na
realização de seus objetivos, defendendo-os contra as forças externas
através do trabalho. Desaparece assim a contradição que existe entre o
seu potencial e a sua realidade (o que nele é subjetivo – sua meta e sua
vida interior) e aquilo que ele é objetivamente. Ele se realiza então, está
objetivamente de posse de si mesmo. Nesse momento, a atividade do
espírito já não é mais necessária, ele tem o que quer. O povo ainda pode
126 A RAZÃO NA HISTÓRIA O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 127
fazer muito na guerra e na paz, em seu país e fora dele. Entretanto, a
alma viva, material, por assim dizer, já não tem mais atividade. O
interesse mais elevado e mais profundo já desapareceu de sua vida, pois
o interesse só existe quando existe uma oposição a ele. A nação vive
como um indivíduo que passa da maturidade à velhice, desfrutando a si
mesmo, porque é o que desejava ser e foi capaz de obter. Embora sua
imaginação pudesse ter ido mais longe, abandonou objetivos mais
remotos, se a realidade não lhes era favorável, ele adaptava os objetivos
à realidade. É esta vida de rotina – o turno foi encerrado e vai desaparecendo
por si mesmo – que traz a morte natural. O hábito é uma atividade
sem tensões. Resta-lhe apenas uma duração formal, em que a plenitude
e a profundidade do objetivo já não precisam ser mais escutadas. A
existência tornou-se externa, sensual, por assim dizer, deixa de lançarse
com entusiasmo a seu objetivo. Assim morrem os indivíduos, os
povos morrem de morte natural. Embora estes últimos continuem a
existir, é uma existência desinteressada, sem vida; suas instituições são
desnecessárias, exatamente porque a necessidade foi satisfeita – toda a
vida política é banal e tediosa. Se é desejado um interesse verdadeiramente
geral, o espírito do povo deveria começar a querer algo de novo
– mas onde estará esta coisa nova? Ela seria uma idéia mais universal,
mais elevada de si mesmo, uma idéia que transcendesse o seu princípio;
mas precisamente isto iria manifestar a presença de um princípio mais
amplo, um novo espírito.
Este novo princípio na verdade penetra no espírito de um povo que
chegou ao pleno desenvolvimento e realização. Ele não morre de uma
morte simplesmente natural, pois não é apenas um único indivíduo, mas
tem uma vida espiritual e universal. Sua morte natural vem antes como
um suicídio. A razão para esta diferença do indivíduo solitário e natural
é que o espírito nacional existe como uma classe e, conseqüentemente,
carrega em si a sua própria negação, a própria universalidade de sua
existência. Um povo só pode morrer de uma morte violenta quando já
morreu naturalmente em si mesmo, como aconteceu com as cidades
imperiais da Alemanha (Reichsstãdte) ou a constituição imperial alemã.'°
10. Hegel naturalmente quer falar da constituição do Santo Império Romano da nação
alemã, que expirou no dia 6 de agosto de 1806. Mas o que ele diz também se aplica à
Alemanha Imperial, que durou de 1871 a 1918. (Nota de Hartman.)
O espírito universal não morre simplesmente de morte natural, ele
não desaparece apenas na vida senil da rotina. Enquanto é um espírito
nacional, é parte da história universal, mas conhece o seu trabalho e tem
uma consciência de si mesmo. Ele é parte da história do mundo
enquanto houver em seus elemento fundamentais, seu objetivo essencial,
um princípio universal – somente até esse ponto o trabalho pelo
qual esse espírito produz uma moral é organização política. Se são os
simples desejos que impelem os povos à ação, essas ações passarão sem
deixar traços, ou melhor, seus traços são apenas a corrupção e a ruína.
Assim, primeiro governou Cronos, o Tempo – a idade de ouro, sem
resultados morais. O que ele produziu, seus filhos, foi por ele devorado.
Foi Zeus, de cuja cabeça saiu Atená e cujo círculo incluía Apolo e as
Musas, que conquistou o Tempo e impôs um limite a seu espaço. Ele é
o deus político, que produziu um trabalho moral: o Estado.
No trabalho está contida a característica natural da universalidade,
a do Pensamento. Sem o Pensamento, ele não tem objetividade, o
pensamento é a sua definição fundamental. O ponto mais alto do
desenvolvimento de um povo é a consciência racional de sua vida e sua
condição, a compreensão científica de suas leis, seu sistema judiciário,
sua moral. Nessa unidade (do objetivo e do subjetivo) é que está a
unidade mais íntima em que o Espírito pode estar consigo mesmo.
Objetivo de seu trabalho é ter a si mesmo como objeto, mas ele só pode
ter-se como objeto pensando em si.
Neste ponto, o Espírito conhece os seus princípios, a característica
universal de suas ações. Mas este trabalho do Pensamento, sendo
universal, ao mesmo tempo .é na forma diferente do trabalho real do
particular e da vida material que o desempenha. Nisso, temos ao mesmo
tempo uma existência real e uma ideal. Se desejamos, por exemplo,
obter uma representação geral e uma concepção dos gregos e sua vida,
iremos encontrá-las em Sófocles e Aristófanes, em Tucídides e Platão.
Nesses indivíduos o espírito grego apreendia-se em pensamento e esta
é sua mais profunda satisfação, ao mesmo tempo ideal e diferente de sua
realidade ativa.
Nesse momento, um povo irá necessariamente encontrar satisfação
na idéia de virtude. Falar sobre a virtude em parte acompanha, mas em
parte substitui, a verdadeira virtude. Por outro lado, o pensamento
universal puro, sendo universal, poderá trazer o especial e o espontâneo
– a fé, a confiança e o costume – pura a reflexão sobre si mesmo e a
128 A RAZÃO NA HISTÓRIA O CURSO DA HISTÓRIA DO MUNDO 129
existência simples e primitiva. Assim, apresenta- -se o limite da vida
sem reflexão, proporcionando em parte razões para abandonar os
deveres e, parte, questionando-se sobre as razões e a ligação com o
pensamento universal. Por fim, não encontrando esta ligação, tenta
acabar com o dever, como destituído de uma boa fundamentação.
Com isso" aparece o isolamento dos indivíduos uns dos outros e, em
relação ao conjunto, aparecem o seu egoísmo agressivo e a sua vaidade,
eles procuram tirar vantagem e satisfação à custa do todo. O princípio
interior desse isolamento ao transcender suas manifestações exteriores
é subjetivo também na forma – egoísmo e corrupção nas paixões irrefreadas
e nos interesses egoístas dos homens.
Zeus e sua raça foram assim devorados – Zeus, que pusera um fim
à ação devoradora do Tempo e que detivera sua efemeridade estabelecendo
com firmeza algo duradouro. Ele foi devorado pela mesma
força que o havia gerado, o princípio do pensamento, do conhecimento,
do raciocínio e da compreensão que vinham da razão e da necessidade
de razões.'2
O Tempo é o elemento negativo no mundo dos sentidos. O Pensamento
tem a mesma negatividade, mas em sua forma mais profunda,
infinita. A existência em geral é determinada e também objetiva."
Portanto, ela surge como dada e imediata, como autoridade, é finita e
limitada tanto como conteúdo quanto como forma – esta última, como
o elo para o sujeito pensante e sua reflexão infinita sobre si mesmo.
[O esclarecimento da existência através do pensamento é, ao mesmo
tempo, necessariamente o surgimento de um novo princípio. O pensamento
como universal é esclarecedor, mas esta solução na verdade
contém o princípio anterior dentro de si, embora já não mais em sua
forma original, mas transfigurada através da universalidade.] Assim,
a vida surge da morte, mas é apenas uma vida individual. Se consideramos
a espécie como sendo a matéria nessa transformação, a morte do
11. Com a desintegração dos laços intuitivos da sociedade: fé, confiança e hábito.
(Nota de Hartman.)
12. Que aboliram os deuses. (Por outro lado, a Razão faz da seqüência cronológica da
história uma seqüência lógica e isto, tirando-se o Tempo fora da história, vinga a Zeus, até
certo ponto.) (Nota de Hartman.)
13. Ver anteriormente, pp. 72ss. (Nota de Hartman.)
indivíduo é um retomo da espécie à sua individualidade. A perpetuação
da espécie não passa então da monótona repetição do mesmo tipo de
existência. A percepção, que é a compreensão do ser através do pensamento,
é a fonte e o local de nascimento de uma nova forma espiritual,
mais elevada, cujo princípio é parte preservador e parte transfigurador
de sua matéria. O Pensamento é o universal, a espécie que é imortal e
que preserva sua identidade. A forma particular do Espírito não apenas
morre naturalmente no tempo, mas é anulada pela atividade automática
que se espelha da consciência. Como esta anulação é atividade do
Pensamento, ela é preservação e transfiguração. Enquanto isso, por um
lado, o Espírito elimina a realidade, a permanência daquilo que é, por
outro lado, ganha desse modo a essência, o Pensamento, o universal
daquilo que apenas foi (sua condição efêmera). Seu princípio já não é
mais o conteúdo e objetivo imediato que havia sido anteriormente, mas
a essência daquilo.
O resultado deste processo é que o Espírito, ao objetivar-se e com
isso tornando-se também objeto de seu pensamento, por um lado destrói
esta sua forma determinada de ser e, por outro, apreende a sua universalidade.
Ele nos proporciona uma nova forma para seu princípio. Com
isso, o caráter substancial do espírito nacional foi alterado, seu princípio
passa a ser novo e mais elevado.
É importantíssimo para a plena compreensão da história apreender
e possuir o pensamento envolvido nessa transição. Um indivíduo como
unidade atravessa diversos estágios e continua sendo o mesmo indivíduo.
O mesmo acontece com o povo, até que o seu Espírito atinja um
estágio universal. Nisto consiste a necessidade interior e conceitual de
sua mudança. Temos aqui a essência, a própria alma da compreensão
filosófica da história.
O Espírito é essencialmente o resultado de sua própria atividade.
Sua atividade é a transcendência da existência imediata, negando-a
voltando para dentro de si mesmo. Podemos compará-lo à semente de
uma planta, que é o começo e o resultado de toda a vida da planta. A
impotência da vida se manifesta precisamente nesta desintegração de
começo e fim. O mesmo ocorre nas vidas dos indivíduos e nas dos
povos. A vida de um povo produz um fruto da maturidade. Sua atividade
visa realizar o seu princípio. Mas este fruto não cai de volta no ventre
que o produziu e amadureceu – pelo contrário, torna-se um veneno para
esse povo. O povo não consegue abandoná-lo, pois tem uma sede
130 A RAZÃO NA HISTÓRIA
insaciável dele. Tomar o veneno é a destruição do que bebe, embora seja
ao mesmo tempo o surgimento de um novo princípio.
Já discutimos o objetivo final deste processo. Os princípios dos
espíritos nacionais progredindo por uma necessária sucessão de fases
são apenas momentos do Espírito universal, que através deles se eleva
e se completa em uma totalidade abrangente.
Assim, enquanto estamos preocupados exclusivamente com a idéia
do Espírito e levando em consideração apenas o conjunto da história do
mundo como não sendo senão a sua manifestação, estamos tratando
apenas dopresente —por mais longo que seja o passado que estudarmos.
[Não há tempo ent que o Espírito não tenha estado ou não estará; ele
não foi, nem ainda está por ser. Ele é eterno agora.] A Idéia está sempre
presente, o Espírito é imortal. [O que é verdadeiro é eterno em si e por
si, não ontem e nem amanhã, mas agora, no sentido de uma presença
absoluta. Na Idéia, o que pode parecer estar perdido está preservado
eternamente.] Isso implica que a fase atual do Espírito contém todas as
fases anteriores em si. Estas na verdade se desdobraram sucessiva e
separadamente, mas o Espírito ainda é o que em si sempre foi. As
distinções entre essas fases não são mais que o desenvolvimento de sua
natureza essencial. A vida do Espírito sempre eternamente presente é
um ciclo de fases que ainda existe lado a lado mas que, em outro aspecto,
parece ser passado. Os momentos que o Espírito parece haver deixado
para trás, ainda possui na profundeza de seu presente.

Hegel

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