O Peso e a Leveza | KUNDERA, M.

| segunda-feira, 27 de julho de 2009
O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com
ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que,
um dia, tudo o que se viveu se há de repetir outra vez e que essa
repetição se há de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!
Que significado terá este mito insensato?

"O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com
ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que,
um dia, tudo o que se viveu se há de repetir outra vez e que essa
repetição se há de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!
Que significado terá este mito insensato?
O mito do eterno retorno diz nos, pela negativa, que esta vida,
que há de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais
voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de
hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por
muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa
beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido. Não
vale mais do que uma guerra qualquer do século xIv entre dois
reinos africanos, embora nela tenham perecido trezentos mil negros
entre suplícios indescritíveis.
Mas algo se alterará nessa guerra do século xIv entre dois reinos
africanos se, no eterno retorno, se vier a repetir um número incalculável de vezes?
Sem dúvida que sim: passará a erguer se como um bloco perdurável cuja estupidez não terá remissão.
Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar se ia com certeza menos do seu Robespierre.
Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais
leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma
enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez
na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a
cabeça aos franceses.
Digamos, portanto, que a ideia do eterno retorno designa uma
perspectiva em que as coisas não nos aparecem como é costume,
porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade. Essa circunstância atenuante impede nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. Poderá condenar se o que é efémero? As nuvens
alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia;
mesmo a guilhotina.

Não há muito, eu próprio me defrontei com o facto: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi me com algumas das suas fotografias; faziam me lembrar a minha infância passada durante á guerra; diversas pessoas da minha família morreram
nos campos de concentração dos nazis; mas o que eram essas mortes
comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um
tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há de
voltar?
Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda
perversão inerente a ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

2

Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número
infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à
cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos
têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia
Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno é o fardo mais pesado
(das schwerste Gewicht).
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano
de fundo, as nossas vidas podem recortar se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga nos, verga nos, comprime nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher
sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o
fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado
for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais
real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser
humano se torne mais leve do que o ar, fá lo voar, afastar se da
terra, do ser terrestre, torna o semi real e os seus movimentos tão
livres quanto insignificantes.
Que escolher, então? O peso ou a leveza?
Foi a questão com que se debateu Parménides, no século VI antes de Cristo. Para ele, o universo estava dividido em pares de contrários: luz sombra; espesso fino; quente frio; ser não ser. Considerava que um dos pólos da contradição era positivo (o claro, o quente, o fino, o ser) e o outro, negativo. Esta divisão em pólos positivos e negativos pode parecer de uma facilidade pueril. Excepto num caso: o que é positivo: o peso ou a leveza?
Parménides respondia que o leve é positivo e o pesado, negativo.
Tinha razão ou não? O problema é esse. Mas uma coisa é certa: a
contradição pesado leve é a mais misteriosa e ambígua de todas as
contradições."

Milan Kundera

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